Sobre os discursos do 25 de Abril de 2009

de Diogo Moreira 25 de Abril de 2009 | Europeias, Legislativas

O discurso de Cavaco Silva, aguardado com “dentes a salivar” por parte das oposições, e sobretudo por parte dos órgãos de comunicação social, revelou-se um discurso institucional, de seriedade e com o objectivo de estimular a participação eleitoral, sobretudo dos jovens, nas três eleições deste ano. Obviamente, estiveram lá presentes vários recados ao governo, devido sobretudo às discordâncias que o PR tem com o governo em muitas matérias, mas o seu carácter dissimulado, nunca materializado em palavras com destinatário claro, permite ao governo dizer que concorda com as palavras do PR, como é da praxe nestas cerimónias. Foi para mim o terceiro melhor discurso deste dia.

Jaime Gama fez um discurso bastante bom, em que elencou uma visão muito mais concreta do que é a crise para o PS, das suas origens às suas soluções. Sem cair em excessos anti-mercado, afirmando assim o código genético do Partido Socialista numa altura em que será cada vez mais necessário declarar a negação de todo o tipo de ataques à economia de mercado e à propriedade privada. Foi o melhor discurso oriundo do PS e o quarto melhor da sessão.

Sobre o discurso do representante dos Verdes (devo confessar que não apanhei o nome do deputado que substituiu Madeira Lopes e que discursou), foi um discurso previsível, cheio dos clichés do costume, em que pulavam inúmeras referências ao fascismo, à liberdade, tudo o que se espera nestas alturas. Saliente-se o afirmar da afronta para o PEV que é a inauguração do Largo Dr. Salazar de St.ª Comba Dão no dia 25 de Abril. Foi para mim o pior discurso da cerimónia, mas numa sessão de discursos de qualidade invulgar tal não é necessariamente negativo.

O discurso de João Oliveira, do PCP, assustou-me bastante. O refrão de Abril Sempre, algo que já de si poderia ser problemático (quais das dimensões do 25 de Abril que se querem exaltar), torna-se aterrador quando se observa as constantes referências por parte de João Oliveira à necessidade duma nova revolução, dum novo 25 de Abril, para refundar o país. O 25 de Abril deu-nos a liberdade é certo, mas também nos trouxe o PREC, a luta contra a ditadura comunista, etc… E revoluções em democracia são sempre ilegítimas, criminosas e imorais. Portugal é uma democracia, com eleições livres, competitivas e justas. Alegar a necessidade de revolução neste contexto causa um calafrio pela espinha de todos os democratas. Admito que seja apenas uma figura de retórica, mas assusta na mesma. Foi o sétimo discurso em termos de qualidade.

Ana Drago, discursando pelo BE, fez uso da sua conhecida capacidade de tribuna para imprimir um bom discurso do ponto de vista da retórica e da linguagem. Mas fiquei igualmente assustado quando por inúmeras vezes se fez referência ao “modelo liberal” como algo que tinha falhado e teria que ser substituído. A facilidade como o prefixo “neo” cai do neoliberalismo, apenas dá munição a todos aqueles que vêem na esquerda do PS um ataque determinado, não aos exageros de actores económicos desregulados, mas sim ao próprio modelo liberal de sociedade, pedra basilar da democracia, e que depende de dimensões políticas, sociais, culturais e económicas. A liberdade de mercado e a propriedade privada são essenciais para a existência de liberdades políticas, e não existem democracias sem um mercado livre e o direito à propriedade individual. Ver uma das melhores deputadas da AR a utilizar este tipo de afirmações, espero que apenas no campo retórico, é para mim problemático. No ranking dos discursos coloco-o em quinto lugar.

O meu camarada Marques Júnior, falando em nome do PS, estava naturalmente muito emocionado por poder falar na cerimónia comemorativa dum evento em que ele participou activamente. Não irei tecer considerações sobre o estado emocional do meu camarada, nem sobre o impacto positivo ou negativo que tal poderá ter imprimido à sua prestação oratória. Em termos de conteúdo, foi um discurso muito próximo do tradicional para estas cerimónias, sendo que muitos dos anteriores fugiram desse mote, o que leva a que o seu discurso tivesse destoado bastante. Foi o sexto melhor do dia.

Passando para aquele que é considerado por muitos como o melhor discurso deste 25 de Abril, o de Paulo Rangel do PSD, devo dizer que é sem dúvida o mais eficiente discurso em termos políticos desta sessão, e talvez de muitas outras. A forma como liga a liberdade legada à geração seguinte pela geração de Abril, à necessidade da geração actual, a geração Europa, de travar os grandes investimentos públicos do Governo é brilhante! Não só como consegue fazer a transição dos valores do 25 de Abril para a oposição ao governo, como a menção à “geração Europa” cola-se directamente com a campanha das Europeias. Pode-se acusá-lo de demagogia, ataques baratos e pouco institucionais, pode-se até contrariar a sua argumentação, mas não deixa de ser um discurso do ponto de vista político brilhante!

Mas para mim o melhor discurso do 25 de Abril, e do qual não estava à espera, foi o da Teresa Caeiro do CDS. Não é tão efectivo politicamente como o de Paulo Rangel, mas em termos de conteúdo e na forma como foi dito, está a anos-luz dos restantes. É um discurso que consegue articular uma visão concreta para o futuro, com a clareza daquilo que se concorda do passado e daquilo que se discorda e não se quer voltar a ver no futuro. Sem clichés, nem muita linguagem extremada, com clareza e seriedade transmitiu-se o que se pensa, sem procurar ofuscar a audiência. Não tenho particular simpatia por Teresa Caeiro, nem pelo CDS, mas pelos vistos há pérolas que desconhecia. E tenho que prestar mais atenção à Teresa Caeiro. Foi para mim, sem dúvida, o melhor discurso do 25 de Abril.

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sobre o autor

Diogo Moreira é doutorando em Ciência Política no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, blogger ocasional no Loja de Ideias e militante do Partido Socialista. Envie mensagem directa no Twitter.

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1 Democrata 25 de Abril de 2009 , 15:29

O discurso do Rangel foi humilhante para o PSD e para o País! Nem nas comemorações do 25 de Abril consegue parar de criticar!!

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2 José Couto Nogueira 25 de Abril de 2009 , 16:51

Diogo Moreira é doutorado em ciência política? Ninguém diria.
O discurso de Teresa Caeiro é que foi assustador! Explico: que as esquerda PCP faça aqueles discursos chapa 4, anti-fascismo, etc. não surpreende; agora que a direita venha com o anti-socialismo básico, sobretudo quando Paulo Portas quer ser moderninho, significa que os velhos traumas contra o PREC (foi um “processo” muito curto, que diabo! Então e o processo neo-liberal, que acaba de nos deitar abaixo?) e a esquerda ainda são vigentes. Entre muitos, há dois erros básicos no discurso dela: (1) Considerar que as soluções de “nacionalização” da banca são um erro (então o quê? dar-lhes o dinheiro sem contrapartidas?) e considerar que o Sócrates é socialista.
E o pior discurso foi o do Rangel, ao usar a efeméride para cascar no Governo, que é a única coisa que ele sabe fazer.
Olhem-me esta frase do Prof. Moreira sobre o discurso: “Pode-se acusá-lo de demagogia, ataques baratos e pouco institucionais, pode-se até contrariar a sua argumentação, mas não deixa de ser um discurso do ponto de vista político brilhante!” Se é demagogo, com ataques baratos, etc. onde está o brilho?

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3 Diogo Moreira 25 de Abril de 2009 , 17:05

Duas notas:

1) Sou doutorando. Ainda não sou doutorado.

2) Muitos discursos demagógicos e com ataques baratos são politicamente brilhantes. E tornam-se em grandes armas políticas. Basta serem soundbytes que facilmente se propagam nos media e que conseguem em poucas palavras sintetizar vários argumentos em coisas simples que entram bem na opinião pública. O imaginário de que a oposição aos grandes investimentos públicos é a defesa da liberdade das gerações vindouras, relacionando isso com os ideais de Abril é, a meu ver, politicamente brilhante.

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4 Democrata 25 de Abril de 2009 , 19:15

É, mas é estupido…

O que Portugal preciso é de uma geração politica mais positiva, e não uma do bota-abaixismo como vivemos hoje…

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5 Paulo Gomes 25 de Abril de 2009 , 17:03

Rangel confundiu os festejos do 25 de Abril com mais um vulgar comício de campanha eleitoral. Vulgarizou a ocasião.

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6 RA 26 de Abril de 2009 , 18:05

Pegando no que alguém acima disse, o que é assustador é que parece que uma larga maioria continua a não perceber que são os eleitores em última instância que julgam, como bem entenderem se foram cumpridos os compromissos assumidos previamente quer de quem governa quer de quem faz oposição. Logo, a opinião é livre! O que eu não vejo é apelos à participação democrática, isso é que eu lamentavelmente não vejo de Sul a Norte, nos Açores e na Madeira.

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