Eu conheço o Francisco Gonçalves, há muitos anos, somos amigos, e admiro a sua combatividade, entre muitas outras qualidades. Mas, peço emprestadas as palavras do Rui A., para discordar deste post dele:
“A Dr.ª Manuela Ferreira Leite, líder do PSD com contrato a prazo não renovável até às próximas legislativas, acabou de fazer o seu enésimo desmentido sobre declarações suas “abusivamente deturpadas” pela comunicação social. O caso, desta vez, foi a hipótese de um governo do bloco central a seguir às próximas legislativas. Segundo toda a comunicação social, a Dr.ª Ferreira Leite terá admitido essa possibilidade. Segundo a Dr.ª Ferreira Leite, essa é uma extrapolação abusiva das suas palavras. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite não é propriamente principiante neste género de “equívocos”. Há uns meses foi a “suspensão da democracia”. Depois o bloco central. Agora, o bloco central novamente. Era bom que alguém dissesse à líder do PSD e, no que se vai ainda acreditando, da oposição ao governo do PS, que, em política, as pessoas apreciam a clareza dos líderes: sim quer dizer sim, não quer dizer não. Talvez, é uma palavra que não tem lugar, sobretudo em momentos de crise como aquele em que vivemos.”
sobre o autor
Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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{ 2 comments… leia-os abaixo ou comente também }
Caro Carlos
Penso que concordarás com o que digo agora.
Aquilo que está implícito (”por detrás”) da polémica que começou ontem à noite toda é algo triste. É que realmente se procura – quem? as pessoas em geral? os adversários? – o anedótico, o acessório, o superficial, o àparte, a chalaça, etc. em vez de procurarmos entender um político ou uma ideologia pelo seu valor como tal, ou pelas suas propostas. Não digo neste blog, muito menos os teus comentários, mas alguém leu em MFL o que ela não disse e pôs a coisa em headlines luminosos.
Vem isto a propósito de se fazerem análises de conteúdo com pinças e bisturi a cada frase de MFL e os outros partidos terem, realmente, liberdade de expressão.
Eu sei que o Governo – porque é Governo – também tem um escrutínio forte (mau era). Apesar de Mário Lino, Pinho, etc já terem sido dados como casos perdidos.
Eu sei a resposta: é que os garotos atiram pedras às árvores que dão fruto. As outras deixam-nas. A resposta é continuar a trabalhar.
FRG
Caro Francisco,
Eu não posso deixar de subscrever o que dizes, quanto ao tratamento diferenciado dos partidos em diferentes visões jornalísticas. E sei perfeitamente que, desculpa veler-me de um adágio, “mais vale caír em graça que ser engraçado”. A verdade é que Manuela Ferreira Leite não tem boa imprensa em geral. Da mesma forma que acho, que o Jornal das Sextas da TVI se tornou um local de combate político e não um telejornal. Mas em geral, ela pode queixar-se de uma pluralidade de tratamentos hostis.
O que me parece questionável, e não creio que ela o tenha feito, é que se possa vitimizar a partir disso. Porque um político na liderança de um grande partido sabe ao que vai. E em todas as grandes democracias ocidentais, o escrutínio é igual ou pior. Um exemplo da minha realidade preferida: os EUA. Eu concordo com o que Obama disse nas primárias num pequeno almoço em San Francisco, sobre as pequenas cidades da Pennsylvania serem lugares onde as pessoas se agarram às armas, à hostilidade face aos estrangeiros e constituem comunidades amarguradas. Como sabes, até 4 de Novembro, esta frase persegui-o. Por muito que ele tentasse dizer o contrário. Mas isso não me inspira pena porque um tipo que se candidata a Presidente dos EUA deve saber que está a abdicar de todo o direito a um desabafo privado. Isso é justo? Não, mas isso é discutir o sexo dos anjos. A realidade mediática é o que é. E se hoje Sócrates disser algures no país que, imagina, “O PSD já irrita, pá!”, isso vai correr a internet, a blogosfera, o twitter e as redacções dos jornais em menos de 5 minutos. Ele pode nem querer dizer isso, mas sabe que não tem complacências.
Aquilo de que eu “acuso” Manuela Ferreira Leite neste episódio, é de … falta de cuidado, se quiseres. Porque era evidente que frases como “suspender a democracia” iam dar nisto. Com a agravante, desculpar-me-ás, de o clima de intriga palaciana do PSD (por razões históricas que aqui já discuti, potenciar essas vozes críticas. Mas ela também devia saber disso, não?
Abraço,
Carlos