Sob a capa dos altos interesses da Nação, economistas reconhecidamente ligados ao PS e ao PSD, entre os quais vários ministros, juntaram-se para subscrever um manifesto onde se propõe uma “reavaliação profunda das prioridades de investimento público”, posição que vem reforçar a líder do PSD na sua cruzada contra as designadas grandes obras públicas. Pode-se perguntar o que une Augusto Mateus e Mira Amaral, Henrique Neto e Miguel Cadilhe, Silva Lopes e Medina Carreira. Aparentemente em campos diferentes, eis que uma derrota do PS aproxima este conjunto de personalidades. O Bloco Central tem-se manifestado de muitas e variadas maneiras mas esta é descarada, dando-se a entender que por aquelas bandas já ninguém acredita numa recuperação eleitoral do centro-esquerda. A três meses do principal acto eleitoral deste ciclo, esta é a mais violenta pazada lançada sobre a ponta final desta governação. De tal maneira que obrigou Mário Lino a dizer que já não tinha idade para estar no governo.
sobre o autor
Cipriano Justo Especialista de Saúde Pública Professor universitário Dirigente da Renovação Comunista






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Cipriano
Independentemente do que conjectura sobre intenções ocultas dos signatários, o que pensa do conteúdo do manifesto?
Penso que não há nada de oculto nas intenções dos signatários. O momento que escolheram para divulgar o manifesto é já em si um programa político. Quanto ao manifesto, devo dizer que Portugal carecendoi desses projectos e sendo eles maioritariamente financiados pela União Europeia devem ser realizados o mais rapidamente possível. Não será por isso que Portugal não dá o salto do desenvolvimento, mas pelo modelo de desenvolvimento.
Cipriano
Um dos argumentos do PS é que as obras inscritas no programa eleitoral dispensavam a discussão durante a legislatura. Ora, aproximando-se as eleições para uma nova AR, parece-me o momento mais adequado para discutir as opções representadas pelas grandes obras. Assim diria que o momento escolhido é absolutamente certo do ponto de vista da promoção da democracia.
Quanto ao conteúdo, não só está por provar a necessidade dos investimentos, como é falso que sejam maioritariamente financiados pela UE. A UE participa numa pequena parte da obra inicial mas os custos de exploração e manutenção são gigantescos e não é de esperar que sejam cobertos pelos bilhetes. Tudo se resume a que o estado tenha que ir subsdiando o projecto ao longo de décadas.
Naturalmente que os custos de exploração, que incluem a manutenção, são da responsabilidade do titular da obra. Estávamos a falar dos custos de construção. Mas tanto quanto me é dado perceber, tendo em consideração as posições anteriores do PSD, o que este partido pretende é ganhar tempo para poder fazer parte da decisão. Quer como governo ou como parceiro de um eventual Bloco Central. E um Bloco Central pode, por exemplo, assumir a forma de uma plataforma com incidência exclusivamente parlamentar. Por isso, considerando as avultadas verbas que a UE atribuiu a estes projectos, há por aí muitos interesses que não querem ficar de fora.
Choca-me este “novo-riquismo” dos equipamentos e das tecnologias como poucas outras coisas.
Chegam diariamente crianças cheias de fome às escolas, os hospitais estão decadentes e deprimentes, os idosos arrastam-se tristes e melancólicos pela vida, as escolas são centros de tensão e violência, as mulheres e os homens não podem ter filhos sem que isso os coloque em limiares de sobrevivência, a vida quotidiana está cheia de papéis e regras inúteis, as agressões a crianças, avós, homossexuais aumentam, … mas queremos mais auto-estradas, mais telemóveis, mais aeroportos, mais condomínios fechados.