Pode perguntar-se se, face à sequência de despautérios que vão sendo conhecidos, é possível identificar, no nosso país, testemunhos de uma prática real da ética da responsabilidade. Penso que sim. Para além da Convergência de Esquerda que realizou a candidatura de apoios plurais liderada por António Costa à CML e da consideração de Jerónimo de Sousa que afirmou a CDU como capaz de protagonizar acordos pós-eleitorais a negociar com o PS, registamos hoje, um outro testemunho que, neste contexto, justifica destaque. Trata-se do facto de, contrariando a demagogia que tem afirmado que o Governo defende “os banqueiros” e protege “os ricos“, Teixeira dos Santos ter reafirmado, a propósito da demissão da direcção do BPP, que salvar este banco “com o dinheiro dos contribuintes” não significa a defesa do “interesse público“… mais, o Ministro da Economia e das Finanças declarou hoje, ultrapassando a tentação demagógica de aproveitamento dos dados que chegam da OCDE relativamente aos sinais que indicam a aproximação do fim da crise (cujos indicadores, nos 3 últimos meses, em Portugal, assinalam já a redução dos níveis de queda da economia), tal como o deixara já subentendido o Presidente do Banco Europeu, que “a crise está aí” e que não devemos ter ilusões sobre o facto de ainda irem ser sentidos os seus efeitos… um exemplo do que é manter a lucidez e falar verdade aos portugueses.

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Ana Paula Fitas

sobre o autor

Ana Paula Fitas Doutora em Ciências Sociais (Ramo: Estudos Portugueses; Especialidade: Cultura Portuguesa do Século XX) pela Universidade Nova de Lisboa. Investigadora Senior nas áreas da Antropologia Social, Antropologia Política, Antropologia de Género e Antropologia das Religiões, Etnologia Comparada e Sociologia Rural, Sociologia da Cultura e Sociologia das Religiões com trabalho desenvolvido e publicado em Portugal, Espanha e Índia. Docente do Ensino Superior. Consultora em Igualdade de Género. Coordenadora de Projectos de Desenvolvimento Comunitário e Local. Autora dos livros "Ocupação Sexual dos Espaços e Redes de Comunicação Social" e "Olivença e Juromenha - uma história por contar", de cerca de duas dezenas de artigos científicos, conferências e comunicações. Colaboradora em orgãos de imprensa regional. Co-autora do blogue Forum Palestina é a Autora do blogue A Nossa Candeia (http://www.anapaulafitas.blogspot.com/).

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{ 19 comments… leia-os abaixo ou comente também }

1 Luis 7 de Agosto de 2009 , 23:05

“Para além da Convergência de Esquerda que realizou a candidatura de apoios plurais liderada por António Costa à CML” ?!?

Bem Ana Paula, parece-me que ganharíamos todos começando por chamar às coisas o seu nome exacto. Está-se a referir à lista do PS à CM de Lisboa, certo?

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2 Ana Paula Fitas 7 de Agosto de 2009 , 23:43

Bem, Luís, de facto não vejo que outro António Costa esteja a liderar uma lista à CML e não creio que os leitores tenham dúvidas sobre o partido a que pertence, desde sempre e com orgulho (ou não fosse um dos melhores dirigentes nacionais do PS)… contudo, seria (e o próprio António Costa foi elegante na referência plural que o PS lidera para, justamente, não ferir susceptibilidades) deselegante chamar simplesmente a esta lista, a lista do PS… só se escrevesse de cada vez que a ela me referisse “a lista do Partido Socialista que integra membros de… e de… e conta com os apoios de… “!… certo?

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3 Luis 7 de Agosto de 2009 , 23:59

Mas de facto esta é como muitas outras listas do PS. Ou não é verdade que todos os partidos – e não apenas a CDU – nas listas para as autarquias locais integram muitos independentes? Pelo menos na CDU integramos sempre imensos independentes. O que me parece deselegante é dar mais importância a uns independentes do que a outros.

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4 Ana Paula Fitas 8 de Agosto de 2009 , 0:34

Luís,

Os independentes integrados na lista da CDU são pessoas que se representam apenas (o termo não é depreciativo!) a si próprias… contudo, no caso da lista do PS, muitos dos independentes são representantes de Movimentos que são estruturas colectivas… por isso, esta não é como outra lista qualquer, do PS ou da CDU… é uma lista de convergência de objectivos que o PS e os vários Movimentos que a integram definiram como comuns…

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5 Luis 8 de Agosto de 2009 , 8:23

“contudo, no caso da lista do PS, muitos dos independentes são representantes de Movimentos que são estruturas colectivas”

E a CDU, a Coligação Democrática Unitária é formada pelo PCP, Verdes, Intervenção Democrática e independentes, o que torna todas as suas listas de convergência democrática, listas de convergência de esquerda, representantes de três estruturas colectivas alargadas a independentes. E como sabe muitos desses independentes são também membros doutras associações, basta ver os resumos das suas biografias.

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6 Ana Paula Fitas 8 de Agosto de 2009 , 11:34

Ainda bem que o lembra, Luís mas, repare que, por ora e talvez por ser novidade, a lista do PS, demonstra coesão na diversidade, não tendo sido retirada visibilidade aos movimentos que a integram… no caso da CDU, acredite que a imagem dessa constituição composta está muittissimo diluída – com alguma excepção para Os Verdes…

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7 Luis 8 de Agosto de 2009 , 13:47

“no caso da CDU, acredite que a imagem dessa constituição composta está muittissimo diluída – com alguma excepção para Os Verdes…”

Sim, pelos media, sem dúvida nenhuma. Nunca por nós.

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8 David Santos 8 de Agosto de 2009 , 20:54

Embora não seja partidário de algum Partido, eu sou como as pessoas: penso. Eu, já desde muito novo, que tenho medo do PS. «Faz-me esquecer a esquerda», digo eu. Em tempos, alguns anos, eu tive o cuidado de dizer, por escrito, quer a Manuel Alegre, quer a José Sócrates, que ambos não sabiam o que era ser de esquerda. Contudo, e como os anos que não param, “para mal dos meus pecados”, ambos continuam na mesma: sem saber o que é ser. “Ser de esquerda não é fácil. Ser de esquerda é muito mais sério do que aquilo que algumas pessoas o pintam”. Para se ser de esquerda não podemos ter “tonturas” de dono, como no caso daquela cachopa de Coimbra, JAD, que, por andar a fazer publicidade para conquistar um lugar numa lista qualquer que lhe abrisse a porta da Assembleia da República, o FL fez um “estardalhaço”. Penso estar espelhar o que muitas pessoas que se dizem de esquerda são: uns procuradores de tachos. Outros, donos. Em relação aos anteriores, Alegre e Sócrates, eu também tenho algumas coisas que podem testemunhar que, eles para serem de esquerda, ainda lhes faltam uns bons bocados. Mas fica para uma altura mais apropriada, talvez mais perto das eleições. Quanto ao António Costa, eu ficaria muito triste se a direita ganhasse em Lisboa. Não digo mais sobre este assunto, porque uma pessoa sendo de esquerda, tem obrigação de pensar. Ah, eu só lhe vou fazer uma pergunta, mas peço-lhe que não a considere inapropriada. É apenas uma pergunta. Se este Governo não ajudou banqueiros corruptos e alguns bandidos, criminosos, muitos do PSD, como sabemos, a quem ajudou?
Mas gostei do texto e desejo-lhe um bom fim-de-semana.

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9 Núncio 8 de Agosto de 2009 , 22:02

Cara Ana Paula,
gosto muito dos seus textos, normalmente serenos, equilibrados, convictos, respeitadores. Tenho-os lido e, como já percebeu, comentado.
Mas essa ligação insistente da ética da responsabilidade (valor muito relevante no exercício da Política) apenas a personalidades da Esquerda acho-a perigosa.
Se a democracia é o melhor dos regimes (ou o menos mau, como alguns preferem) é porque permite a riqueza de alternativas e escolhas, a alternância, a complementaridade.
Creio que, sobretudo nestes tempos conturbados, não é demais recordá-lo.
Obrigado.

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10 Ana Paula Fitas 8 de Agosto de 2009 , 23:16

Caro David,
Obrigado pelas suas palavras… o mais importante é, efectivamente, encontrar pessoas que pensam e se não demitem do direito e da liberdade de pensar… porque, na capacidade de pensar, enquanto forma de se elaborarem juízos que não são reféns de interesses mais ou menos corporativos, reside, também, a nossa disponibilidade para ouvir e interagir… sim, também eu considero e sei que, “ser de esquerda não é fácil” e é “muito mais sério do que muitas pessoas o pintam”… porque, como o próprio David também diz, “uma pessoa, sendo de esquerda, tem a obrigação de pensar”… hoje, apesar das aparências, continua a ser muito difícil ser de esquerda… a mediatização e uma certa abertura no acesso ao poder (apesar de tudo, relativa e estreita, reconheça-se) criaram a ilusão de que “ser do contra”, apregoar críticas fáceis e apelar a alguns “clichés” basta, acrescidas estas formas de expressão de uma atitude agressiva, para se ser de esquerda… contudo, é ainda a vontade do poder e uma incondicional capacidade de jogar com calculismo, esquecendo a inteligência de quem assiste, que justifica grande parte dos exercícios de protagonismo que por aí são ostentados… numa perspectiva alargada é nisso que consiste, com mais ou menos escrúpulos, penso eu, a natureza dos “procuradores de tachos”… quanto à pergunta que faz, cabe-me talvez presumir que, na teia dos relacionamentos socio-políticos, algumas alianças e apoios vêm a revelar-se o oposto do que se pretendeu… com ou sem conhecimento e consciência prévia?… a isso, se não vier a público a verdade, ficará na consciência de cada um… contudo, acredito que, em política, além de calculismo, existem ainda boas intenções e um espaço não negligenciável de imprevistos… no que às ajudas que o PS deu penso que não podemos ignorar a imensa (comparativamente se pensarmos no que se produzira antes) produção legislativa sobre igualdade de oportunidades e não discriminação, o investimento em energias alternativas, a modernização simplificada de muitos procedimentos burocráticos, o apoio ao desenvolvimento de competências actualizadas no ensino das crianças… entre outras coisas, poderiamos ainda falar do apoio complementar a idosos e do esforço em manter activa a dimensão social do Estado… é pouco? é possível fazer mais e melhor? seguramente que sim… para isso, são necessárias duas condições, a primeira das quais é a oportunidade para a continuidade política da governação e, depois de garantida a primeira, continuar a insistir na correcção dos sinais e das formas de actuação, num permanente esforço de aproximação a uma sociedade mais justa… uma luta por objectivos, afinal de contas, David… mais uma vez, obrigado pela sua leitura e pelo seu comentário.
Votos de continuação de bom fim-de-semana.

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11 Ana Paula Fitas 8 de Agosto de 2009 , 23:25

Caro Núncio,

Foi particularmente gratificante ler o seu comentário de hoje. Obrigado.
A ética da responsabilidade é um pilar essencial para a gestão social da vida, da política e da governação… e não, caro Núncio, não a considero um exclusivo da esquerda. Os exemplos aqui enunciados decorrem de situações recentes que, no contexto dos assuntos que têm vindo a marcar a agenda política e da comunicação social dos últimos tempos, adquirem maior relevo, por contraste. Acredito e sei, porque conheço e reconheço pessoas de direita que me merecem a maior consideração e em quem a ética da responsabilidade é, simplesmente, um modo de estar na vida e em todas as suas dimensões… já agora, obrigado por me proporcionar uma oportunidade para o dizer e esclarecer. Volte sempre. Um abraço.

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12 Luis 9 de Agosto de 2009 , 9:46

“A ética da responsabilidade é um pilar essencial para a gestão social da vida, da política e da governação… e não, caro Núncio, não a considero um exclusivo da esquerda.”

Infelizmente na governação da cidade provou ser um exclusivo do PCP e dos Verdes. A história da permutas dos terrenos e a negociata com a Bragaparques aí está a comprovar. Todos os outros – PSD, CDS-PP, PS e BE – viabilizaram, apenas PCP e Verdes votaram contra e vencidos, accionaram a justiça, conseguindo assim travar graves atentados contra os interesses comuns dos lisboetas.

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13 Ana Paula Fitas 9 de Agosto de 2009 , 19:43

Luís,
Não há colectivos perfeitos… nem na direita, nem na esquerda. É importante ser intelectualmente honesto e justo quando se trata de pensar em pessoas que não temos o direito de julgar, demagogicamente, identificando-as, todas, sob vagas generalizações, com actos ilícitos cometidos por alguns dos que integram esses colectivos… à direita e à esquerda… os casos que refere penalizam esses representantes político-partidários e, extensivamente, as forças políticas que os elegeram, defenderam e protegeram… mas, não compromete todas as pessoas, no caso, de direita… naturalmente!

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14 David Santos 8 de Agosto de 2009 , 23:58

Tudo certo.
Era isso mesmo.
Contudo, eu não pus em causa o que este governo possa ter feito de bom. Pus, isto sim, o que penso ter feito de mau.

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15 Ana Paula Fitas 9 de Agosto de 2009 , 8:06

Obrigado, David… manter aceso o discernimento continua a ser a nossa, comum, palavra de ordem. Um abraço.

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16 Luis 9 de Agosto de 2009 , 11:35

“manter aceso o discernimento continua a ser a nossa, comum, palavra de ordem. ”

O que ocorre na governação da cidade – é disto que estamos a tratar – é a desesperada tentativa de manter um esquema de governação à margem do PDM. E de fazer esquecer as responsabilidades próprias de PS e BE na viabilização das negociatas do PSD e CDS-PP. Mas PS e BE foram cúmplices e mantém o desinteresse no PDM. Para não afrontar interesses instalados? Obviamente.

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17 Ana Paula Fitas 9 de Agosto de 2009 , 19:49

Que interesse tem a globalidade das forças políticas representadas na CML em ignorar o PDM?… Que interesses instalados? Serão interesses tão globais que justificam a unidade multipartidária? Porquê?… será que o PDM merece uma moção de confiança? Se sim, porque não a propõe a CDU? … pelo menos, o problema é discutido com transparência e resolvem-se acusações e suspeitas…

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18 Luis 9 de Agosto de 2009 , 21:29

“Porquê?… será que o PDM merece uma moção de confiança? “

«Entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o senhor e o servo, é a liberdade que oprime e a lei que liberta». Isto já tinha concluído no século XIX Henri Lagardaire, dominicano e deputado na Constituinte Francesa de 1848.

Na verdade, para o forte, para o rico, para o senhor o que lhe interessa é não haver entraves, não haver regulamentos, não haver lei para que possa impor a sua força e exercer o seu domínio a seu bel-prazer. A única lei que lhe interessa é a lei do mais forte. E é isto que tem interessado ao Costa e ao PS, como já antes interessou ao Santana, Carmona, PSD e CDS-PP.

Por isso todos eles deixaram arrastar a revisão do PDM, o que permitiu ainda há poucos dias o Costa autorizar a construção em Monsanto de uma nova subestação no Zambujal, sem estudo de Avaliação de Impacte Ambiental e onde inclusive autoriza o derrube de árvores no parque Florestal em mais de meio hectare. Tudo isso, em terreno sob a administração do Município de Lisboa, dentro do perímetro do Parque Florestal do Monsanto, adjacente ao que se encontra ocupado pela Subestação da Rede de Distribuição da EDP, junto a CRIL (Azinhaga da Marinheira), Freguesia de S. Francisco Xavier.

Ou seja, uma grave lesão do interesse municipal ambiental. Mas isso não tem interesse algum, não é Ana Paula?

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19 Ana Paula Fitas 10 de Agosto de 2009 , 12:15

Caro Luís,
Se uma árvore não oculta a floresta, porque razão se julga no direito de considerar que o assunto não tem, para mim, interesse algum?… termino dizendo-lhe que todas as leis e todos os regulamentos podem e devem ser aperfeiçoados e adequados à realidade… no caso dos PDM’s, por todo o país, esta é, aliás, uma questão urgente… mas, não vou alimentar a polémica… a mim, como cidadã, interessa-me tanto Lisboa como a mais recôndita aldeia deste país.

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