A Economia é uma coisa terrível. Padece de uma das vulnerabilidades epistemológicas mais demolidoras: a ilusão de proximidade entre o objecto de conhecimento e o sujeito cognoscente. Ou, a ideia de que toda a gente que compra um jornal, nem que seja de bola, pode governar um Banco Central. Não é um monopólio dos economistas. Mas é seguramente um domínio com barreiras à entrada, sobretudo de quem tiver apenas ideias pré-concebidas a partir de uma cartilha doutrinária de pseudo-Política. O problema é que muitos dos treinadores de bancada não têm mais do que isso. E não reconhecem que o neo liberalismo é um alinhamento político entre duas escolas que nada deviam ter em comum uma com a outra mas que se unem na mesma conclusão: o mercado é rei; o Estado só atrapalha; Amon-Rá, Alá, ou o Olimpo inteiro  intervem e o equilíbrio produz-se; morte aos impostos. Nunca ouvi dizer, contudo, que esses supostos conhecedores tivessem passado pela Sopa dos Pobres. Para perceberem que o ajustamento dos mercados pode ser apenas um conto de fadas para crianças.

Há sempre os que advogam que quem está na sopa dos pobres é porque merece, ou porque o Estado os colocou lá. Um tal de Nuno Branco dizia-me, em tempos, que ”recusava o Estado Social como qualquer verdadeiro liberal”. E o engraçado é que alguns deles se intitulam sociais-democratas, porque estão para além do conhecimento de base de que a social democracia, como expliquei aqui, está filiada nas correntes de pensamento da Internacional Socialista. Desenganem-se os que pensam que o PSD é um partido liberal. Que defende o livre ajustamento dos mercados. Há lá gente dessa. Porque num albergue espanhol há de tudo. Mas um chapéu que abriga Nogueira, Barroso, Zita Seabara, Santana Lopes, Luís Filipe Meneses, e tantos outros, é, na expressão de Mário Zambujal, um mero guarda chuva com ramagens. Não tem um padrão definido. Quando a implosão ocorrer, pode ser que o sistema partidário passe a fazer sentido.

Nunca, contrariamente ao que foi dito, um neoliberal apareceu a defender os baixos juros como incentivo ao crédito fácil. Basta ler os amigos do costume, que acham que o Banco Central se apropriou até indevidamente do direito de criação de moeda. Disso ninguém os acusa. Só os novos agnósticos ideológicos da economia da compra de jornal, leia-se: a tralha cavaquista.

A manipulação da política monetária e orçamental com efeitos sobre a procura agragada é uma ideia keynesiana, como até o Samuelson, na sua versão de base, explicará. Os que pretendem negar ao Estado sequer o direito à condução de uma política económica de gestão da conjuntura estão num randianism preocupante. Mas não desesperemos. Nós que ainda temos um pingo de solidariedade e justiça social nos cromossomas. Nenhum partido político significativo no mundo tentou levar à prática um programa assente em Ayin Rand ou em Hayek. Porque os partidos organizam-se em função de projectos de poder (ou de muletas de projectos de poder). E por alguma razão o Partido Republicano americano, para tristeza de uns tantos em Portugal, nunca se atreverá a levar Ron Paul a votos. O landslide arriscava-se a ser de 538-0.

Importará contudo notar aos expoentes do conservadorismo fiscal que acham que os governos “comem tudo, comem tudo e não deixam nada”, que mais do que uma demagogia castradora, há nessa afirmação um conteúdo político. Se não têm partido, formem um! E vão a votos como os outros. Ou negam sequer a própria democracia? É que eu suspeito, que os neoliberais têm alguma coisa de totalitários. O mercado é a divindade, nem que seja pela força das armas, se a do dinheiro não chegar.

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Carlos Santos

sobre o autor

Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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1 Francisco Rocha Gonçalves 20 de Abril de 2009 , 6:06

Caro amigo
Concordando contigo, mas enfatizando coisas diferentes, prefiro dizer que “neo-liberalismo” e “keynesianismo” by-the-book são doutrinas do domínio da história. Apareceram em contextos específicos e que não se repetem.
Temos hoje políticos e economistas que perfilham soluções filiadas nesses movimentos – ou um pouco de cada frequentemente como o Plano Obama com elementos do lado da procura e do aldo da oferta.
Entristeçe-me apenas uma coisa. Há alguns que aproveitam mal o “neoliberalismo” para chamar “nomes feios” à falta de melhor. Lamento-o porque é um rótulo tão apelativo que elimina qualquer chance de discussão séria posterior…
Vamos andando.
Abraço

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2 MBM 20 de Abril de 2009 , 16:29

Carlos,

As únicas explicações plausíveis para a sua inclusão de links neste post que nada têm a ver com as ideias que pretensamente quer criticar são necessariamente pouco simpáticas para consigo. Depois queixe-se de perseguição. Mas entre obsessão patológica ou incapacidade intelectual de perceber um texto, venha o diabo e escolha…

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3 Carlos Santos 20 de Abril de 2009 , 19:55

Não é nenhuma perseguição. E se têm essa incapacidade podem começar por textos mais simples. Os links referenciados dizem respeito a duas ideias das quais há n exemplos no insurgente:
- a defesa das consequências económicas do ideário político de Ayn Rand;
- a defesa da corrente austráca que advoga que os bancos centrais se apropriam indevidamente do direiro de criar moeda.

Inclui as fontes para facilidade de documentação de quem me lesse e não soubesse que existia quem defendesse tais absurdos. Chama-se a isso uma boa praxis científica: referenciar textos sobre a matéria.

Ao dispor para mais esclarecimentos,
Carlos Santos

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4 MBM 21 de Abril de 2009 , 11:28

É verdade que existem N exemplos de defesa das ideias de Rand e da escola austríaca n’O Insurgente. Algumas até escritas por mim. No entanto os dois artigos que eu escrevi, e que o Carlos linkou, não são exemplo disso. São outra coisa completamente diferente, como qualquer pessoa que os leia poderá constatar.

Ou o Carlos não fez devidamente o trabalho de casa de ler o que linka, o que demonstraria que a sua animosidade tem algo de patológico; ou então leu e não percebeu, o que demostraria limitações surpreendentes (ou intelectuais ou de seriedade).

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