Se admitirmos que existe um voto útil é porque também há o voto inútil? Ou seja, há uma totalidade constituída por voto útil/voto inútil, ou o voto útil é já a sua totalidade? Eu diria que existe um voto útil declarado e um voto inútil latente, manifestando-se uma tensão constante entre um e outro até que os contributos para a decisão atinjam um dado limiar. Esta tensão é tanto maior quanto maior também for o grau de indecisão. No limite, a abstenção é a escolha que melhor representa um dado estadio da racionalidade individual e de grupo. Em economia eleitoral, o voto declarado é a manifestação de uma totalidade que integra interesses, conjuntura, utilidade esperada. Está presente um juízo sobre o valor que é atribuído a quem se delega o poder. E esse poder é para produzir efeitos no espaço de tempo considerado útil para quem o delega. A aversão ao risco ensina-nos que se prefere obter um benefício agora do que um benefício diferido mesmo que potencialmente mais vantajoso, mas incerto. É esta racionalidade que explica o designado voto útil, e o voto inútil, também.
sobre o autor
Cipriano Justo Especialista de Saúde Pública Professor universitário Dirigente da Renovação Comunista






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Cipriano,
Explique me entao:uma pessoa de esquerda que votará CDU ou BE,porque haverá de votar PS quando este nao representa uma politica de esquerda.
Nao tem logica,nem muito menos e um voto util votar PS quando este no governo é tudo menos de esquerda.
Se queremos mais e melhor esquerda temos que votar em quem realmente o é,isso sim é dar utilidade ao nosso voto
Eu penso que não prestou qualquer atenção ao post. Não estando nós num processo insurrecional nem numa via revolucionária, pelo menos por enquanto, havendo uma direita que não é nehum tigre de papel e tem fortes possibilidades de poder ganhar as eleições, um inquilino em Belém que se chama Aníbal Cavaco Silva, dois partidos de esquerda que nem querem ouvir falar de centro-esquerda e se anulam politicamente, o que é que o eleitorado de esquerda que ainda não fez a sua escolha tende a fazer? Essa é a pergunta que a esquerda tem de fazer a si mesma. Não é, votem em nós e depois logo se fazem as contas; se a direita ganhar, paciência, cá estaremos na próxima oportunidade.
Cipriano,
O Franscisco tem toda a razao,a direita nunca poderá governar depois destas eleicoes,mesmo que como diz Cavaco chame FL,PSD+CDS nunca terão maioria absoluta,logo so poerão governar se PS,CDU,BE aprovarem orçamento,leis,tudo…
Logo o que o Franscisco fala é uma falácia,quanto mais força tiver a esquerda,mais esta vai condicionar o PS a governar realmente a esquerda,seja com acordo governativos ou parlamentares,porque como expliquei antes,e já agora tente me contradizer,o PSD so poderá governar no dito bloco central,logo voto util nestas eleicoes pura e simplesmente nao existe
continuo a aguardar a explicação…
Essa de a direita “nunca poderá governar” é equivalente a um jamais que andou por aí. A não ser que se esteja a pensar num mecanismo que impeça, por via não eleitoral, de a direita poder ser maioritária.
Cipriano,
Estamos a falar nas circunstancias actuais,éo meu voto na real esquerda em vez do PS que pode levar o PSD o governo,ambos sabemos que nao.
Sejamos honestos,se o PS nao e de esquerda como e que o seu voto pode util??
Ambos sabemos também que o proximo governo tera que fazer coligacoes,ou parlamentares ou ate governativas,ai sim se aplica o voto util,quanto mais votos tiver a CDU,mais força esta tem para negociar politicas com o PS,ou em caso extremo(acredita simceramente que PSD+CDS terão maioria absoluta???),mais força terá para fazer oposição ao governo,seja este PS ou PSD
Eu não falo de outra coisa, senão das circunstâncias actuais. Mas vou-me lembrar de que a CDU está disposta a negociar políticas com o PS. Está quase a convencer-me a votar na CDU. Está a ver o que é o voto útil?
Se o Cipriano simpatiza com esses ideias,ou com o bloco,deve votar neles,porque esses partidos defendem a esquerda,ao contrario do PS,logo o voto no PS nunca pode ser util,porque nao e de esquerda…
Para mudar a vida politica a esquerda sao precisos votos,e nao falacias do voto util,visto este nao existir,porque passaria por uma pessoa de esquerda abdicar dos seus ideais para votar num PS que defendeu nestes ultimos 4 anos uma politica contraria a esquerda.
Como Cipriano Justo continua autisticamente a falar de «voto útil» (no PS, pois então !)
volto a perguntar a todos os leitores com dois dedos de bom senso e de inteligência:
- MAS QUAL É A DIFERENÇA PARA O OBJECTIVO DE O PSD+CDS NÃO TEREM A MAIORIA ABSOLUTA QUE O PS TENHA 35%, A CDU 12% E O BE 10% (soma 57%) OU QUE O PS TENHA 32%, a CDU 14% E O BE 11% ?
Nenhuma, nenhuma, nenhuma. Talvez o Cipriano Justo venha dizer (não me admirava) que
com 35% ou 32% o PS corre o risco de ser ultrapassado pelo PSD e ser este o mais votado. E qual é o perigo se isso sucedesse ?. Nenhum. Bastava o PS querer e, com os votos também do PCP , dos Verdes e do BE, esse Governo não passaria na AR.
Ou pretenderá Cipriano Justo que o PS tenha mesmo de ser o mais votado, nem que seja à custa do PCP e do BE, para depois ir entender-se com o Paulo Portas, como frequentemente aconteceu nos consulados de Guterres ?
O que os eleitores sabem neste momento, mas pode ser que até 25 de Setembro mudem de intenções, é que a esquerda qualquer que seja o seu peso relativo, não quer nada com o centro-esquerdo, qualquer que seja a sua votação, nem antes nem depois de 27 de Setembro. Ou a esquerda, no exemplo de distribuição eleitoral que apresenta, está na disposição de examinar um programa e um governo de esquerda? É que a difrença entre tabuada e política é esta.
Suponhamos que as coisas, por absurdo,eram como Cipriano Justo diz. Mas ele esqueceu-se de contar aos leitores o mais importante, ou seja, em que é que modificações na distribuição de votos entre PS, CDU e BE afecta a questão da direita ter maioria absoluta ou não. E devia ter a honestidade de responder que obviamente não afecta.
Repito que não há nenhuma política que se possa basear em pressupostos númericos falsos e enganosos. Não quer C.J. ver a questão pela lado da maioria absoluta de um «campo» PS+CDU+BE ? Então vejamos ao contrário: se o PSD+CDS tiverem uma maioria absoluta que diferença faz que o PS tenha 37%, a CDU 5% e o BE 5% ou que o PS tenha 30%, a CDU 10% e o BE 7% ? Nenhuma, nenhuma dessas variantes de resultados «à esquerda» altera a maioria absoluta da direita.
Já agora, sobre disposições negociais pós-eleitorais, será Cipriano Justo capaz de favor de exibir alguma declaração clara, responsável e inequívoca do PS de abertura para negociações ou entendimentos à sua esquerda? É que eu não tenho andado na Lua e nunca dei por ela.
“A aversão ao risco ensina-nos que se prefere obter um benefício agora do que um benefício diferido mesmo que potencialmente mais vantajoso, mas incerto.”
Mas qual é o benefício certo que o PS oferece? Isto é, à esquerda, porque há quem conte com benefícios certos do PS, claro.
O benefício imediato que uma parte substancial do eleitorado de esquerda equaciona é barrar o caminho à direita. Que não é um papão, é um risco bem real.
Cipriano
Mas as políticas do PS são de direita. O alinhamento do PS com os bancos e grandes construtoras é perfeito. O PS executou políticas que o PSD nunca tinha sonhado. Ultrapassou o PSD pela direita no código do trabalho. Votar PS é apenas garantir políticas de direita com camuflagem.
“havendo uma direita que (…) tem fortes possibilidades de poder ganhar as eleições”.
Ah! Lá temos outra vez o papão útil. Pois eu votando na CDU em nada, em rigorosamente nada contribuo para que isso venha a acontecer. E quantos mais fizerem como eu e votarem na CDU, menos possibilidades tem a direita de ganhar as eleições. Porque votar na CDU é reforçar a esquerda, é contribuir para a eleição de mais deputados de esquerda e também para uma relação de forças mais útil para uma viragem na vida nacional.
Exactamente Luis,quem quer esquerda tem que votar esquerda,nao no PS que faz tudo menos politica de esquerda,logo e um voto inutil
Sempre que a direita esteve no poder não foi um papão. Foi um acontecimento bem real. De que todos estamos lembrados, penso eu.
“Sempre que a direita esteve no poder não foi um papão.” Fez exactamente o mesmo que o PS fez e faz. No Código de Trabalho o PS ainda conseguiu fazer pior. Para a maioria – nós os que trabalhamos – são inúteis os votos quer num quer noutro.
Cipriano,
não me considere maçador, mas – reformulando algo que já escrevi aqui – acho muito pobre fazer dezenas de textos e depois ter centenas de comentários que não saem da dicotomia esquerda/direita e do maniqueísmo “nós somos bons/eles são maus”. Tudo isso são chavões historicamente datados que, se queremos ser uma “democracia moderna”, como é chic dizer agora, têm de ser objecto de um “upgrade” discursivo, de natureza social, económica, financeira, política e cultural.
Adiante. O que diz o Tiago e o Francisco está certo. Pouco importa (a não ser aos militantes ferrenhos, claro) a correlação de forças interna (dentro da esquerda ou da direita); o que interessa é a correlação externa, ou seja, se PSD+CDS ou PS+CDS (muita atenção a este cenário, Cipriano!) têm votação suficiente para governar, tornando inútil a votação no BE e na CDU.
Ora, tenho para mim que dificilmente “este” PS se coligará com o BE ou com a CDU (muito menos com os dois), pois nesse dia o Sócrates deixaria de ter o apoio da Banca (BES e CGD), da construção civil e da ala católica (que não é nada irrelevante: Rosário Carneiro, Oliveira Martins, D. Policarpo, etc.). Mas não se esqueça que não é nada improvável que a sucessão directiva do PS seja antecipada em função das próximas eleições e, nesse caso, a força do BE (menos da CDU) pode ser decisiva (se o novo secretário-geral for alegrista ou soarista ou até sampaísta, tudo menos socratista ou guterrista).
O recente desespero do PS nasce desse receio: que uma eventual vitória minoritária (que julgo ser ainda o cenário mais provável, pese embora algum reforço do PSD) provoque o isolamento do actual líder por não ter ninguém (só Portas e daí a chamada de atenção anterior) que se queira coligar com ele.
Em suma, voto útil para um governo de “esquerda” é, sem dúvida, no BE e na CDU, na expectativa do sucessor de JS fazer a ponte. Voto útil num governo de “direita” é no CDS. Voto no PSD é um voto de rejeição de JS, não tanto da política do PS. Voto no PS (minoritário, como se prevê) é o mais difícil de contextualizar, dado o isolamento que se auto-impôs JS.
Tudo o que tenho dito sobre o voto útil é sobre o que pode levar o eleitorado a votar nos partidos maioritários. E o eleitorado, a sua grande maioria, não anda a especular para se decidir em quem vai votar. Vai votar em quem defende os seus interesses imediatos. E quem pode defender os seus interesses imediatos é quem governa, quem toma decisões sobre o que influencia a vida das pessoas. Isto, que pode parecer um pormenor, é o aspecto fulcral para o que eu tenho vindo a chamar a atenção: a economia eleitoral.
Cipriano
A maioria do eleitorado é capaz de ir mais longe do que limitar-se a acreditar que só pode escolher PS ou PSD.
Num contexto de incerteza sobre a solução governativa a sair das próximas eleições, a única segurança dos eleitores é votar no partido em que mais acreditem, naquele que melhor exprime as suas convicções.
“Num contexto de incerteza sobre a solução governativa a sair das próximas eleições, a única segurança dos eleitores é votar no partido em que mais acreditem, naquele que melhor exprime as suas convicções.”
Eu diria que em qualquer contexto essa é sempre a melhor opção.
Voto inútil não existe desde que se vote no partido que melhor nos pode exprimir , como as nossa convicções e as nessa ideias.
Mesmo sabendo que ele pode não ser governo ele pode desde que seja eleito introduzir votações na assembleia como exprimir a sua opinião e acrescentar mais valor a mesma.
Se mais de 30 anos de governos do PS e do PSD, com e sem CDS, com as consequências conhecidas, ainda não ensinaram aos eleitores, mesmo aos que se dizem de esquerda, o que é o voto útil para que se pratique uma política diferente, uma política de esquerda, não há lucubração filosófica que o ensine.
O tempo de percepção dos efeitos das políticas é diferente de classe social para classe social, de estrato profissional para estrato profissional, de indíviduo para indíviduo. Se não se perceber isto e se se tratar o eleitorado como se fosse uma massa homogénea, a esquerda dificilmente vai conseguir algum dia governar o país.