Legislativas (2): Antevisões e sondagens num Domingo de Páscoa

de Carlos Santos 13 de Abril de 2009 | Informação, Legislativas

Apesar de ter sido Domingo de Páscoa, diversos indicadores relevantes para o debate iniciado ontem sobre a possibilidade de uma maioria absoluta do Partido Socialista vieram a público. Tinha-se exemplificado, com recurso a uma variante do modelo da cidade lider de Hotelling (1929) em que medida é que os partidos colocados mais próximos dos extremos do espectro político poderiam constituir uma desastibilização de um sistema assente em dois partidos em competição pelo centro. Como nota a Ana Paula Fitas, a sondagem revelada primeiramente pelo Pedro Magalhães, atribuindo, após distribuição de indecisos, uma votação conjunta de 24% ao BE e à CDU, mesmo com um PSD a valer menos do que o máximo que considerei (a votação de Fernando Nogueira em 94), mas com uma votação conjunta CDS+PSD na casa dos 33%, permitiria ao PS alcançar uma marca de 43% apenas se o voto nos restantes partidos e a soma dos votos brancos e nulos fosse praticamente (onde se demonstra como a soma de parcelas residuais de 0,25% não é negligenciável). Na sonsagem de Aximage, entre votos noutros partidos, brancos e nulos, é estimada após correcção, uma fracção de 4%. Com uma projecção final para o PS de 40,2%. E não é de modo algum líquido que 43% chegassem para um mandato uma grupo parlamentar socialista com mais de 115 deputados.
É certo que uma sondagem é um exercício de inferência, e por isso sujeito a erros amostrais, e que faltam sensivelmente 5 a 6 meses para as eleições. Como bem observou a Fernanda Valente, é possível interpretar a escolha estratégica de Vital Moreira para cabeça de lista às europeias pelo PS, independentemente das suas credenciais políticas e intelectuais, como um exercício de sedução em curso de Sócrates à sua esquerda. E a multiplicação deste tipo de exercícios pode bem advir, como advoga a Fernanda Valente, de uma percepção por parte de José Sócrates da tese que formulei sobre o seu buffer de segurança ser, neste momento, claramente maior que à esquerda. Não se trataria para a Fernanda de um exercídio de sedução do Bloco para coligações pós eleitorais mas de uma tentativa de captação do eleitorado crescente que surge a apoiar o BE.
Não contesto minimamente a tese superiormente suportada no seu gentil comentário ao meu post, excepto no que diz respeito à total exclusão por parte de Sócrates de um governo de coligação. Não me parece que ele tenha ainda condições políticas para aspirar a outros cargos de relevo, nacionais ou internacionais. Porque o próximo ciclo presidencial não é particularmente simples para os socialistas, e porque a sondagem de que dava conta a Marina Costa Lobo, parece garantir uma vantagem confortável a Durão Barroso na recondução à presidência da Comissão, se fizermos fé na palavra de criaturas volúveis como Sarkozy. E sobretudo, porque penso que a expressividade da vantagem eleitoral do PS nas legislativas (+14 pontos que o PSD nesta sondagem !) tornam difícil alegar algum tipo de “pântano” para justificar a saída: as preferências do eleitorado pela esquerda parlamentar, são avassaladoras (64% versus 33%, descontando os não-assuntos).
Partilho com a Fernanda Valente as dúvidas na dificuldade no estabelecimento dessa plataforma, porque, como disse antes, Francisco Louçã não é dos que vendem a alma para chegarem a ministros. O seu percurso político demonstra-o. E seria profundamente benéfico para o país se uma plataforma de diálogo sobre questões sociais, entendidas com um aprofundamento das redes sociais de apoio à pobreza e à exclusão, pudesse ser negociada como plataforma entre as duas forças. Haverá obviamente dificuldades nesse diálogo, mais a mais, num cenário em que o partido do taxi tenha os escassos deputados de que Sócrates precisa para a maioria.
A ambição de Paulo Portas, como o próprio revelou múltiplas vezes, é fazer do CDS um partido de poder (em bom rigor de muleta de poder), e bem nos lembramos dele travestido de pose de Estado na sua função de “Ministro das Profundezas Ocêanicas”, a combater a sua personalidade para mostrar ao PSD que era um parceiro fiável.
Como observou Mário Soares, num documento escrito da sua Fundação, em 2005, “O CDS/PP tornou-se um partido de poder, com o abandono de qualquer vertente ideológica, e alinhado pelo europeísmo quanto baste para manter a coligação.” Sabemos bem, como dizia antes, que Portas não é comparável a Louçã em matéria de solidez de princípios, e em troca de meia dúzia de lugares para a sua clique nas Secretarias de Estado, e de um lugar de ministro para si, até seria o representante do PS na Concertação Social, se tal fosse preciso.
A composição actual do eleitorado, medida como fiz ontem ou usando a sondagem da Aximage, só reforça essa possibilidade, que pode ser uma opção a que Sócrates não se possa furtar. Uma reedição mais formalizada da tentação do Queijo Limiano em que António Guterres caiu. Portas não deverá pedir sequer o que Daniel Campelo pediu. Nem na defesa de interesses de amigos seus contra uma regulação económica eficaz.
Esta coligação poderia contudo ser abalada pelo número escasso de deputados que tinha acima da metade parlamentar, sobretudo pela mais sensível ala esquerda do PS aos tempos difíceis de crise na UE. E concordo com o corolário da Fernanda, embora aplicada a outra coligação: à crise económica teríamos provavelmente que somar a crise política.
Sucede, que no dito post de ontem eu abria para um segundo cenário, que não me parece que esta sondagem exclua completamente. O PS tem uma oportunidade de chegar à maioria absoluta, com esse diálogo vocacionado para a esquerda se conseguir de facto ir buscar alguns eleitores que estão a tender para O BE, e se o esvaziamento do PSD se confirmar. A sondagem confirma a tese do esvaziamento. Em parte bem ilustrada nas dificuldade que o PSD está ter em encontrar um cabeça de lista para as Europeias: as apostas já incluem de tudo, mas mostram sobretudo um cisma acentuado entre a líder do partido e muito das suas estruturas. Quando é o próprio Nuno Santos, o assessor do major que chamava “baixinho” a Marques Mendes, a vir defender a escolha deste, e a líder permanece obstinada em negar essa possibilidade ao partido, está uma boa metáfora desse esvaziamento construída. E quando um partido vê os seus apoiantes mais ilustres a atirarem a toalha ao tapete em descrença, há algo de estruturalmente errado em tudo isto. Como dizia e bem a Fernanda, “O PSD deixou de ter as características de partido político sério”.
Essa análise terá de facto que ficar adiada. Mas para que uma frase leviana não fique no ar, eu concretizo: quando os militantes se preocupam em defender que o é crucial nestas Europeias é a escolha do Presidente da Comissão, sem uma única sugestão de fundo para os desafios que enchem a imprensa internacional sobre a UE e outros se entretêm com histórias de embalar de vidas passadas está tudo dito sobre a mensagem actual do partido – não existe. Mas esse é um filme mais longo que nos obriga a repensar o Hotelling, e o Código de DaVinci do PSD. Esta Segunda. Garantido.
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Carlos Santos

sobre o autor

Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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1 Fernanda Valente 13 de Abril de 2009 , 13:47

«Não contesto minimamente a tese superiormente suportada no seu gentil comentário ao meu post, excepto no que diz respeito à total exclusão por parte de Sócrates de um governo de coligação. Não me parece que ele tenha ainda condições políticas para aspirar a outros cargos de relevo, nacionais ou internacionais.»

Mais uma excelente análise política à qual não podemos ficar indiferentes.
Agradecendo as suas alusões ao meu comentário, obviamente só poderei concordar com a sua tese, exceptuando o pormenor de JS estar preparado para fazer parte de um governo de coligação.

Não conheço pessoalmente JS, e portanto, a minha opinião subsequente deriva do meu poder de observação e de uma certa capacidade de intuir factos que mais tarde acabam por tornar verosímeis as minhas “teses”, digamos assim…
Tenho JS como um político atípico e penso que a palavra “carreirismo” não seja uma das suas principais preocupações. Na minha opinião, esse facto será um dos factores que contribui para que ele (PS) continue à frente nas sondagens, independentemente das políticas que tem vindo a implementar, altamente contestadas e que têm mobilizado praticamente todo o sector corporativo da nossa sociedade.
Tomemos como exemplo Durão Barroso que, enquanto primeiro-ministro do anterior mandato governativo, acredito, tenha tido vontade de pôr em prática o seu programa de governo, igualmente ambicioso, mas que não tendo conseguido suportar as várias pressões de que começava a ser alvo, acabou por resignar, salvando-se, no entanto, pelo gongo, que resultou no convite para presidir à CE. Com António Guterres, passou-se mais ou menos a mesma coisa.
A reacção de JS perante um maioria relativa nas próximas legislativas é para mim, neste momento, ainda uma incógnita, apesar de estar inclinada a manter a minha opinião formulada no anterior comentário.

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2 Carlos Santos 13 de Abril de 2009 , 17:58

Cara Fernanda,

Antes de mais muito obrigado pelos seus comentários sobre o meu texto, embora exagerados pela sua gentileza. Em qualquer caso, eu compreendo o cerne da sua perspectiva sobre José Sócrates e um eventual abandono em cenário de maioria relativa. Até porque Sócrates parece ser menos dado ao estabelecimento de compromissos do que Guterres, e este último, tal como Barroso, preferiram a saída a pretextos mais ou menos discutíveis.
É quase um exercício de bola de cristal tentar antever essa situação, e a intuição ou a inteligência emocional são formas de análise tão boas como outras. Nesse sentido, eu sou levado a concordar que na aparência JS não parece dado a esse tipo de solução. Não estou realmente a ver é que tipo de justificação política ele poderia avançar para um cenário que como disse e bem num comentário anterior seria de ingovernabilidade a prazo. Mas seguramente que a dada altura a dramatização do discurso poderá também integrar a campanha, até porque neste momento eu penso que ninguém sabe até onde pode ir a compressão do PSD. O que potencia o voto útil. Esse é um ponto central no texto que estou a elaborar sobre o assunto.

Obrigado,
Carlos Santos

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