Vamos fazer um pequeno exercício de imaginação. Admitamos que eu decidia chamar a este texto qualquer coisa como “Futebolistas que percebem os limites, e futebolistas que não os percebem“. Isto porque, imagine-se lá, Portugal tinha um campeonato de futebol muito competitivo, onde 3 equipas disputavam fervorosamente o título. Cada uma dessas três equipas tinha um jogador extraordinário no ataque, capaz de decidir um jogo num remate de meio campo, de costas para a baliza adversária, e com três adversários na marcação individual. Chamemos a estes três craques do outro mundo, A1, B1 e C1. E admitamos por fim, que chegada a última jornada do campeonato as equipas estão rigorosamente empatadas segundo todos os critérios imagináveis. Curiosamente, jogam nessa última jornada com três equipas rigorosamente empatadas no último lugar, e em cada uma dessas três equipas joga, digamos, um irmão de cada um dos três génios mencionados acima. Sejam eles X1, Y1 e Z1. Admitamos que são três implacáveis defesas, cruciais na esperança de qualquer uma das últimas classificadas fazer um bom resultado com as primeiras. Imaginam com certeza que cada um dos três insuperáveis defesas vai marcar individualmente o respectivo irmão nesses 3 jogos decisivos.
Supondo que o futebol português era liga milionária de dirigentes impolutos, como com toda a certeza é mas só para claraficar vamos admitir isso. O público que compra bilhetes para o último jogo da sua equipa, e o que subscreve um pay per view a taxa acrescida para esse jogo, espera, digo eu, que os seus atletas ofereçam o melhor do seu esforço. E fica então a pergunta: que clube, ou que adepto de que clube, alguma vez aceitaria, por exemplo, que o jogador X1 se dirigisse aos seus responsáveis e dissesse “Olhem, eu peço humildemente perdão e até abdico de um mês de salário. Mas não capaz de jogar contra o meu irmãozinho porque sendo defesa tenho que lhe dar nas cenelas e ele pode aleijar-se!”? Alguém imagina o surrealismo da situação? E se por acaso os 2 defesas das 2 últimas equipas decidissem fazer isto? Sem juízos de valor da minha parte fica a pergunta, achariam que o terceiro devia fazer o mesmo? Se por acaso a equipa do terceiro, consigo em campo, perder, graças à magia de C1, enquanto as outras duas conseguem o miraculoso empate. Conclui o leitor que Z1 foi mau profissional porque facilitou a vida ao irmão, ou que X1 e Y1 é que mostraram falta de profissionalismo?
Se alguém escrevesse sobre isto sob uma aúrea de não querer emitir juízos de valor, mas, lembre-se, intitulasse a crónica de “Futebolistas que percebem os limites, e futebolistas que não os percebem“, acha que estava a tentar ser sugestionado a construir um julgamento contra o defesa Z1?
Quando pensar bem e chegar a uma resposta, considere que, alguém que pretende fazer um texto não emitindo juízos de carácter, lhe conta que no episódio da Casa Pia, Rita Ferro Rodrigues comunicou à SIC que não queria conduzir essa matéria, por o nome do seu pai estar a ser ventilado entre os suspeitos. E que Ricardo Costa, conhecido jornalista, fazia igual declaração a respeito da candidatura de PSL à Câmara de Lisboa, contra António, irmão de Ricardo. E que, num terceiro exemplo, Alexandra Prado Coelho, casada com o advogado de Carlos Cruz, diz à sua redacção que não pretende trabalhar sobre o processo Casa Pia. No final de tudo isto, como quem não quer a coisa, refere o episódio do outlet do Alcochete e de Fernanda Câncio, respeitada jornalista do DN, assumir na blogosfera e noutros espaços a sua convicção de inocência de José Sócrates, seu presumível namorado. Acredita o amigo que os 3 primeiros exemplos foram usados com algum fim de moldar o seu julgamento quanto à conduta de Fernanda Câncio?
Poderá a má vontade de alguns levar a pensamentos do género: lá está um código totalitário de conduta. Os esemplos foram construídos de forma, a que sem que os parágrafos acima o assumam, a capacidade de isenção de Fernanda Câncio seja presumida como perdida. Tal como a do jogador Z1.
Pois, mas eu não me quero precipitar e acreditar que o autor do texto acima (o meu outro eu, numa espécie de dualidade de personalidade em que agora escreve Mr.Hyde e acima escrevia o Dr. Jeckill) seja preverso ao ponto de querer moldar a opinião do leitor. E por isso vou introduzir mais uma condicionante na análise. Imagine que os exemplos acima até eram dados por uma pessoa que fosse conhecida, pelo menos na blogosfera e na sua rua, por ser uma defensora acérrima do mercado livre. Que, como já se argumentou, presume agentes racionais. Para colorir a coisa imaginemos que a pessoa até escrevia em sítios em sítios insuspeitos de laivos totalitários, como blogues liberais e mesmo libertários. Verdadeiras catedrais da boa reflexão económica e política que coloquem o indivíduo como agente responsável e decisor do seu destino, sem qualquer maniqueísmo de Estado.
Esta nova informação dá um pouco mais que pensar. Caramba, se a pessoa em causa tem esses pruridos na defesa da liberdade individual, não vai concluir que Fernanda Câncio, ser humano e jornalista, se tem que comportar de acordo com um paradigme mental definido pelo autor dos textos, qual Deus Ex Machina. Reitero que estamos a supor uma personagem que escreve em casa de gente que se curva quando passa pelo corredor com os sorumbáticos retratos de Hayek e Ayn Rand. Esses patronos do liberalismo. Seria esmagadoramente surpreendente e contraditório que nos comentários aos textos, a autora dissesse: “Quanto à distância necessária para fazer jornalismo, se V. não entende que a proximidade emocional não permite a isenção, o que quer que lhe diga?” Em que V. podia ser um blogger respeitado, que tentava discernir como podia um ou uma alegado/a liberal ter uma posição determinística destas sobre o ser humano: Z1 obrigatoriamente favorece o irmão, tal como Fernanda Câncio obrigatoriamente favorece José Sócrates. E depois de insistir, e tentar chamar o interlocutor à razão leva como resposta: ”É uma questão de natureza humana, de resto assim considerada por vários jornalistas: os casos que eu dei e os que levantaram a questão Câncio.”
Aí pelo sexto ou sétimo, o liberal abandonou o combate com a estirada:
“É o do juízo que eu, enquanto consumidor de notícias, faço da isenção de um jornalista. Não é por FC me garantir que se sente competente para dar opiniões isentas que eu tenho que aceitar o que me é dito. Eu quero a informação para saber se ela é isenta ou não. Que V. não queira, é consigo, mas não me imponha as suas escolhas. Uma questão de liberalismo.”
O que indiscutivelmente é uma grande saída de cena: justificar a atitude moralista, censória e totalitária que se tinha defendido, propondo a incapacidade subconsciente da jornalista lidar com a matéria com LIBERALISMO, é descomunal… A primeira obrigação hayekiana do liberalismo era reconhecer a autonomia da vontade de FC face ao julgamento legítimo de RFRodrigues, APC ou Ricardo Costa. Embora existam nesta história paradoxos adicionais:
- demonstrada a inconsistência da proposta liberal que automatiza os seres humanos, importa ainda notar que se apelou à liberdade da consumidor de informação. O que tem resposta fácil. A liberdade do consumior é assegurada pelo direito a não comprar. Não leia as colunas da jornalista em causa. Não veja o seu programa. Não vá ao blogue que lhe é associado. Mas permita aos outros consumidores decidirem se querem ir ou não. Propor que a jornalista é emocionalmente incapaz de ser isenta é tentar varrê-la do mercado de informação sobre o caso Freeport. O que suspeito seja a agenda oculta de muitos recém descobertos defensores da liberdade de expressão. É que suprindo FC, ganha-se mais espaço para o ataque com insinuações ao PM. A liberdade dos consumidores não advém de uma via censória, mas antes da via de escolherem não comprar.
- O argumento continua contudo a ser dissimulado: o autor não quer liberdade de escolha, nem a declaração de inocência de Fernanda Câncio. Se lermos bem, o que diz explicitamente é que quer “a informação para decidir”. Isto é, permanece convicto da tese que atravessa o post: sabendo se FC é ou não namorada ou companheira do PM, saberia se FC é ou não uma fonte válida. Porque lá está: os laços afectivos com o PM, a existirem demonstrariam má fé, no que não é senão o mesmo mecanicismo marxista que leva a concluir comportamentos determinísticos para o indivíduo, retirando-lhe capacidade para agir como achar melhor.
- Equivale o ponto anterior a dizer que estamos de facto perante uma segunda cabala. Todos nos lembramos bem das insinuações do Menino Guerreiro sobre a vida privada do PM. Ora, regressamos à caça às bruxas: no ultimato que aqui se apresenta, ou Câncio assume uma relação e é banida, ou assume uma fachada, e permite o regresso da tese que PSL advogou, com a elegância que lhe reconhecemos, em 2005.
- Que essa indigação da vida privada venha da mesma gente que não admite ter um funcionário das finanças a ver a sua conta bancária, mostra bem a tremenda hipocrisia de tudo isto. A direita indigna-se com o levantamento do sigilo e a inspecção por funcionários das finanças. Mas exige saber em detalhe a vida amorosa de José Sócrates.
- E o mais fascinante de tudo. Um membro desses arautos do liberalismo saiu a terreiro defendendo que a conduta das jornalistas RFG, APC e de Ricardo Costa. Com respeito pelos três, não seria de esperar de alguém com uma visão mercntil da vida, que essas condutas fossem intoleráveis? Que uma relação salarial, que não lhes pedia qualquer trabalho indigno, falasse mais alto? De um ponto de vista retórico, quais as balizas do liberalismo?
Quando se soma tudo isto ao julgamento popular que a TVI armou, percebe-se a fraqueza jurídica do caso. Já argumentei em tempos que o PM não tem que provar a sua inocência. Ou estamos na era medieval. Quem tem que provar é quem acusa. Mas se pensarmos um pouco nos casos de Paulo Pedroso, Ferro Rodrigues, e nas insinuações de PSL em 2005, concluímos que a direita parece ter perdido fôlego para ganhar eleições com propostas. Em 2002 beneficiou de uma estranha demissão de Guterres e nos anos seguintes moveu a mais assassina das campanhas à liderança do PS. Em 2005, uma acossado PSL valeu-se da mais torpe das armas: a insinuação. Em 2009, as práticas são as mesmas. Interessa depôr o PM, não interessa combater com propostas o PS.
35 anos após o 25 de Abril suspeito que não foi para isto que se fez a revolução…mas eu nem tinha nascido.
A questão que me sobra, é retórica. Porque é que niguém questiona o suposto jornalismo de investigação da TVI que arranja sempre resultados para Sexta-Feira? Não é estranho? Não podia o DVD ser revelado na Quinta? É que essa da Mulher de César é uma faca de dois gumes. E espanta-me mais ainda quando a Direita se tenha indignado por um tal de Emídio Rangel se ter gabado de ter eleito um Presidente da República. Querem agora que Moniz deponha um PM?
sobre o autor
Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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A argumentação é boa, mas tem uma falácia enorme. São os laços afectivos que afectam o julgamento e não os laços familiares. Na argumentação há o pressuposto que os laços familiares levam a bons laços afectivos, o que é um grande pulo.
Do que o Carlos Santos está a falar é da manipulação das expectativas, que como economista domina e é sabe bem o que é.
A questão moral em discussão é que quando dizemos a alguém que algo é mau ou bom criamos uma expectativa no sentido do nosso julgamento.
O que se tem feito em relação à Fernanda Câncio é isso mesmo. Há os que influenciam negativamente e os que influenciam positivamente.
O Carlos Santos, com este post está no grupo dos que influenciam positivamente as expectativas sobre a Fernanda Câncio.
Caro Júlio, eu concordo que os laços afectivos são mais fortes que os familiares. Mas esava a presumir, o que devi a ter deixado explícito, uma boa relação entre os irmãos. Não me deu para construir um exemplo em que numa equipa jogassem homens e noutro as suas namoradas:)
Um abraço,
Carlos