Desmontar as Previsões da Comissão e os limites do possível

de Carlos Santos 5 de Maio de 2009 | Europeias, Informação, Legislativas

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A tabela acima diz respeito às previsões reveladas ontem pela Comissão Europeia. Decidi incluir 13 países da zona Euro e o Reino Unido por me parecerem as comparações mais pertinentes no contexto de Economia Portuguesa. Se alguém tiver uma rgumento sólido para a inclusão do Luxemburgo e de Chipre é bem vindo.
A tabela reporta as previsões da Comissão para 2009 e 2010 no que toca à taxa de crescimento do PIB real, à taxa de inflação, à taxa de desemprego, à % do défice público no PIB e à % do saldo da s contas correntes no PIB. Em termos simples e directos, eu não encontro o menor suporte para algumas teses que os media e certos partidos da oposição alegaram ontem:
1) alegou-se em primeiro lugar que a recessão era particularmente grave em Portugal, não só este ano mas sobretudo em 2010, altura em que já poucos países estariam com crescimento negativo. A última coluna corresponde ao cálculo da taxa de crescimento anual média dos 2 anos. E aqui importa dizer que Portugal vai decrescer anualmente exactamente à média dos países em causa. Dito de uma forma simples: se partíssemos todos com o mesmo produto no início de 2009, chegávamos ao final melhor que a Alemanha, a Irlanda e a Eslováquia, e sensivelmente idênticos à FInlândia, Itália, Espanha e Áustria. Não me parece caso para drama!
2) Em relação à taxa de desemprego importa fazer uma salvaguarda: nenhum número deve ser desprezado, no sentido em que menos um desempregado já é mais um ser humano mais realizado. Mas olhando para a frieza dos números, quando se anunciou no habitual tom taciturno que íamos ser o descalabro do mundo em 2010, a verdade é que, no próximo ano, estamos francamente abaixo da média comunitária. E nitidamente abaixo da Alemanha, da França, da Espanha, da Bélgica, da Irlanda e da Eslováquia. Em 2009, as previsões apontam para estarmos ligeiramente abaixo da média comunitária.
3) O terceiro argumento esgrimido foi a subida do desemprego em 2010! Agrada-me? Nem um pouco. Mas, bolas, todos os 14 países da tabela têm o desemprego a subir entre 2009 e 2010. Sejamos sérios na análise. O oásis que o Professor Cavaco dizia que eramos foi glosado até mais não. Mas parece que os tais que o defendiam, ainda acham que somos um oásis.
4) O afamado défice pelo qual devemos todos morrer à fome, segundo o Comissário Almúnio. Eu gostava de olhar para as previsões de 2009 e perceber que país é que está a cumprir os 3%. Mas não consigo. E em 2010, conseguimos estar abaixo da média. Com alguns casos engraçados: ha hiperdisciplinada Alemanha, o PIB está a crescer e o peso do défice a aumentar…Quando a taxa de crescimento do PIB diminui, tudo o resto constante, o mesmo défice tem um peso maior. Estranho mesmo é o PIB estar a crescer e em todos esses países o peso do défice aumentar! Já agora, a cumprir o PEC, em 2010 eu só vejo a Finlândia.
5) O único ponto válido na leitura totalmente negativista deste quadro é a questão das contas correntes com o exterior. Só que que eu me lembre, nós temos um problema crónico de balança comercial. Não é deste governo, do anterior, ou sequer da AD orginal. É um problema estrutural. Mas convém dizer o seguinte: a nossa felicidade neste cenário resulta de 65% do PIB português assentar na procura interna. Porque os países fortemente dependentes das exportações como a Alemanha, a Irlanda e os países de leste que aqui não estão têm taxas de crescimento e / ou desemprego assustadoras. o Financial Times recomendava vivamente há dias que a Alemanha revisse o seu modelo exportador. E esse tem sido um objecto de discussão na imprensa internacional: um modelo de desenvolvimento em que alguns países acumulam superávites maciços pode custar-lhes caro.
Em síntese:
- variação média anual do PIB na média;
- desemprego abaixo da média em 2009, e mais abaixo em 2010;
- todos os países têm agravamento do défice público em 2010, e nós ainda temos a desculpa de um crescimento real negativo;
- contas correntes estão más desde sabe Deus quando;
Porque é isto uma crise de procura? O relatório da comissão explica direitinho. No caso português o consumo privado desce 1,3% em 2009, e o investimento, porque há menos encomendas, cai 14%. Animal Spirits. As exportações caem 11,7 porque a procura mundial está em quebra. Na Alemanha vão caír 16% este ano. A diferença: a ditosa Alemanha aumentará os seus gastos públicos em 2% e nós apenas em 0,6%.
Num cenário destes, ainda sobram dúvidas que são as componentes de procura que estão a matar o crescimento? E não parece óbvio, a menos que a UE decida sancionar muita gente mesmo, que o programa de investimentos públicos e transferências sociais está correcto?
Uma nota final: se não estamos com futuro mais risonho, a tabela mostra que isso se deve a receios excessivos do PEC. Além disso, eu não levaria as previsões de inflação muito a sério. Por razões a ver depois.
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Carlos Santos

sobre o autor

Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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Crise | Sociedade | Política | Soluções
6 de Maio de 2009 ás 20:59

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1 causavossa 5 de Maio de 2009 , 13:38

Que a crise é uma crise de procura já os agentes económicos tinham dado por isso.

O único drama é que Portugal parte de uma situação de rede social miserável, com uma percentagem significativa de pobres, contrariamente a quase todos.

Alguém me explica que rede proteje as centenas de milhar de precários no desemprego, sejam eles falso recibos verdes, sejam eles micro-empresários, pequenos empresários e independentes?

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2 Carlos Santos 5 de Maio de 2009 , 15:37

Meu caro amigo, eu não podia concordar mais quanto à generalização do apoio das redes sociais em Portugal: seja pela extesão do subsídio de desemprego, seja pelas facilidades do tipo microcrédito, seja segurança no emprego. Agora, no que toca a já toda a gente saber que é um crise de procura, experimente ir a alguma blogue da escola austríaca da economia e dou-lhe alguns exemplos se quiser, e eu asseguro-lhe que o insultam quando pronunciar essa expressão:) Para eles a procura não iteressa, o que releva é que se a quantidade de moeda fosse fixa tudo estava bem. O que não tem suporte empírico, mas a economia é às vezes uma questão de fé:)

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3 Jorge Assunção 5 de Maio de 2009 , 15:10

“Se alguém tiver uma rgumento sólido para a inclusão do Luxemburgo e de Chipre é bem vindo.”

Tirando o facto de representarem uma população que equivale a 12% da população portuguesa e estragarem-te as estatísticas, nenhum…

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4 Carlos Santos 5 de Maio de 2009 , 15:32

Estragarem-me as estatísticas é algo que posso verificar. Mas precisamente por terem um peso económico reduzido e uma população ínfima da portuguesa, não vi grande interesse na sua inclusão. Já agora, assumo que fizeste os cálculos, podes-me dizer que valores são alterados (em termos de médias comunitárias)?

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5 António Rodrigues 5 de Maio de 2009 , 22:00

Caro Carlos Santos

Como sempre, li com atenção o seu texto, mas permita-me algumas reflexões.

Há uma dúvida que se me coloca, relativamente ao investimento público. Para Os economistas que defendem esta corrente o Investimento público (infra-estruturas, educação e em I&D) poderá ser a melhor estratégia de aumentar o capital fixo, valorizar a força de trabalho e promover a inovação, sendo a melhor forma de estimular o crescimento económico a longo prazo.

A questão que me assola é a seguinte:

Poderá um país, como Portugal, que vive em déficites excessivos e estruturais há anos, e que para o ano, segundo dados conhecidos, 100% da produção nacional será para pagar dívida, enveredar por um pacote de investimentos públicos tão avultados como os que pretende o Governo?

Há países que poderão enveredar por esse caminho(do investimento Público) mas são países que não vivem há anos em deficit excessivos e estruturais, o que significa que, ao apostarem no investimento público, agora, para combater a crise, irão criar deficites conjunturais, que rapidamente irão corrigir.

Não sou contra o investimento público, todavia, acho que o mesmo se deve pautar pelos critérios do investimento privado;

Grandes investimento publicos não me parece a melhor solução para o combate à crise, aliás essa mesma política, foi abandonada pelo proprio Banco Mundial, preferindo-se agora, pequenos projectos de proximidade, cujo o efeito reprodutivo é superior.

Um dos melhores projectos, de combate à pobreza, foi por exemplo o microcredito de Muhammad YUNUS, que começou com qualquer coisa como 50 dolares, e que teve resultados espectaculares.

Essas são algumas das minhas reflexões, de um curioso em economia, mas que gosta de pensar e aprender.

Obrigado

António Rodrigues

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6 Daniel Rebelo 6 de Maio de 2009 , 20:07

Jorge Assunção,

A UE tem uma população algo parecida com 490 milhões de habitantes e você está a falar de cerca de 1,2 milhões. Isto arredondado dá 0,25% da população total da UE. Se fizer diferença acho que seria bom para todos que explicasse qual diferença é essa.

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