Não tenho a certeza se terá sido um lapso. Manuela Ferreira Leite provavelmente queria mesmo falar do Bloco Central e com isso levar o assunto à sua segunda semana completa de debate. É uma forma de publicidade subliminar e que permite interiorizar a ideia na mente do eleitor.
Que ganharia ela com isto? A única hipótese viável de reconduzir o PSD ao poder em 2009. As sondagens são inequívocas: dificilmente o PSD conseguirá em legislativas bater o PS. Mostram também que o PP se arrisca a desaparecer do mapa (a ameaça de processo de Paulo Portas à empresa de sondagens que lhe deu 2% é reveladora de que ele está próximo do estado dos dois únicos políticos que alguma vez vi ameaçarem isso: John McCain em 2008, e Santana Lopes em 2005 – os resultados de ambos são conhecidos). Mas o esvaziamento do PP não está a empolar o PSD a um nível que lhe permita contestar umas eleições legislativas ao PS. Com Sócrates, o PS tornou-se hegemónico do centro esquerda ao centro direita.
Mas Manuela Ferreira Leite sabe também que o perigo para Sócrates está na subida progressiva das intenções de voto no Bloco. Como já disse uma vez, é complicado, mesmo com o PSD em mínimos de 33%, se o Bloco e o PCP chegarem aos 20%+ o PS dificilmente soma 116 deputados.
Ao abrir espaço ao Bloco Central, Ferreira Leite serve múltiplos interesses:
- se o PSD é um partido sem ideologia desde Sá Carneiro, tornou-se essencialmente um partido de interesses e poder; chegar ao governo, mesmo em Bloco Central é satisfazer baronatos e clientelas;
- o eleitor desmoralizado do PSD que não via jeitos de a líder levar o partido adiante podia abster-se ou votar em Sócrates, que lhe inspirava mais confiança. A generalização da ideia do Bloco Central pode levá-lo a um novo impulso: vota para dar mais força ao PSD nessa aliança;
- o voto útil, que em Portugal teme necessariamente a esquerda do PS, não se via compelido a votar em Sócrates para lhe assegurar a maioria, se o PSD formasse esse bloco;
- os putativos líderes do PSD ficariam em banho maria enquanto MFL assumia o segundo lugar num governo de coligação;
- o esvaziamento do CDS torna-se ainda mais provável com a lógica do voto útil a dominar os interesses;
- a ideia dessa aliança bloco reforça alguma transferência de voto à esquerda para o BE, colocando o PS mais longe da maioria.
Em síntese, não na óptica do país, não na óptica do PS, e não na óptica sequer da direita onde se presume inserir, mas na óptica de justificar ser um partido de poder, e com a hegemónica desculpa da crise, a estratégia do lançamento do tema “bloco central” pelo PSD não me parece inocente. E a reacção do PS tem sido a possível, sem o descartar por completo tenta arrefecer o debate. Porque a última coisa que lhe interessa é ver mais gente à esquerda fugir para o Bloco, o objectivo que MFL parece ter.
Ninguém disse que a política era um jogo bonito. Suspeito é que era melhor mandarem
sobre o autor
Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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{ 4 comments… leia-os abaixo ou comente também }
Claro que a fórmula Bloco Central usada como lapso de MFL não foi lapso algum, Carlos.
Aliás, só aparentemente as coisas aparecem por acaso num Partido que é tradicional no uso das máquinas de propaganda e imagem. É para isso que servem as assessorias e, se elas forem eficazes, até conseguem fazer passar a aparência de que os discursos escritos são ditos de improviso.
Existe uma tentativa de MFL empurrar o PS para a esquerda de forma a que possa recuperar o seu eleitorado que tem vindo a transferir-se para o PS, se o BE cresce o PCP cresce e o PS mantém, o eleitorado de algum lado vem, vamos às perguntas: Qual a defesa do PS nesta conjuntura eleitoral? faz acordo com o PSD pós nupcial (eleições) ou pré nupcial ? mantém a coisa num limbo e assobia para o ar? ou faz acordos à esquerda?
espera pela maioria? e se a não alcança? e os 12 deputados que a imprensa diz que Manuel Alegre negociou como ficam nesta contabilidade de maioria PS ou BC ?
Não queria estar na pele de José Sócrates.
Não querendo tirar o gozo da polémica, os senhores assistiram ao lançamento da questão do Bloco Central pelo PSD??
O que eu vi foi uma pergunta feita à MFL e por ela não ter descartado automáticamente (nem precisava) surgiu a notícia em jeito de “PSD não diz que não à partida”. Depois vi várias personalidades do PS a comentarem alimentando o assunto.
O facto engraçado é que tanto a CIP como presidentes da república sugerem-no “a bem da nação”…
…Volta a famosa máxima do “suspender a democracia por 6 meses se for preciso”, desta feita – 4 anos.
Quanto ao Bloco Central, é verdade que MFL falou disso, e até se explicou malzito. Mas sejamos justos, se há partido a falar de bloco central e da sua necessidade é o PS, e como diria o Quinito, com a carne toda para o assador, ele é Jorge Sampaio, ele é Almeida Santos a defenderem o bloco central.
http://oblase.blogs.sapo.pt