Áreas de Enriquecimento Curricular (AEC’s)

de Ana Narciso 2 de Abril de 2009 | Legislativas

Uma das bandeiras do partido socialista levantada pela sua Ministra de Educação Maria de Lurdes Rodrigues, foi sem dúvida a Escola a Tempo Inteiro oferecendo a todas as crianças do primeiro ciclo : Educação Física , Língua Inglesa , Educação Musical … entre outras. Este modelo exemplar e proclamado de inovador está cheio de contradições . Por exemplo: a oferta das áreas é obrigatória (e quase uma vergonha se não são disponibilizadas) , mas a frequência é facultativa. Como consequência a indisciplina torna-se mais frequente. A matriz escolar do que é oferecido – Língua Inglesa , Educação Musical e Educação Física – condiciona o papel do professor/monitor a quem se exige que siga orientações emanadas do Ministério da Educação para aplicar num tempo onde as crianças já estão mais para se divertir do que para aprender. Como consequência há uma má apropriação de métodos de trabalho e de aprender que demorarão meses a combater , quando “ for a sério”. Só há uma solução; integrar estas áreas no currículo regular do primeiro ciclo. Ontem já era tarde.

As eleições estão aí ; temos de mudar de paradigma. Um paradigma centrado na liberdade de escolha das famílias com mais autonomia financeira e pedagógica onde aprender e entreter não sejam confundidas nem confusas. Portugal e os Portugueses merecem melhor!

  Twitter          
Ana Narciso

sobre o autor

Ana Narciso Professora e politicamente incorrecta. Gosto de conversar e do ... contraditório. Ainda acredito que posso mudar o Mundo!

Últimos 3 artigos
A luta continua - 19-04-2009
Cidades Amigas do Ambiente - 16-04-2009
Europa - 5-04-2009
Todos os artigos de Ana Narciso

{ 9 comments… leia-os abaixo ou comente também }

1 mdsol 2 de Abril de 2009 , 21:48

Por exemplo: a oferta das áreas é obrigatória (e quase uma vergonha se não são disponibilizadas) , mas a frequência é facultativa. Como consequência a indisciplina torna-se mais frequente.

Peço desculpa mas não entendo esta relação. A existir uma relação de causa-efeito (discutível assim tão linearmente colocada) parece-me que o resultado seria exactamente o oposto. Se só lá está quem quer…

Estarei a ver a coisa enviesada?
:))

Responder

2 Ana Narciso 2 de Abril de 2009 , 22:17

Obrigada pelo seu commentário porque me permite esclarecer melhor o que se passa. O problema é que só está quem não pode sair para outras áreas como por exemplo dança, natação ou pura e simplesmente brincar. Portanto muitos ficam contrariados e sem outras opções. Imagine outro problema : as áreas curriculares são de frequência facultativa , o que fazer às outras crianças que não querem frequentar aquelas áreas e já se encontram na escola? O que fazer nos anos seguintes , quando umas já iniciaram aprendizagens em Língua Inglesa e outras não? Afinal são ou não importantes pra o desenvolvimento das crianças ? Se quiser acompanhar com mais detalhe o que se passa em alguns concelhos do país , faça uma visita ao blog vilforte.blogs.sapo.pt. Ficará com uma ideia dos problemas que estas áreas criam nas escolas e nas famílias portuguesas.

Responder

3 mdsol 2 de Abril de 2009 , 23:09

Obrigada pela resposta pronta!
Acho que percebo. Mas, e antes de espreitar o blog que faz o favor de indicar…
Parece-me que tudo o que refere se reporta ao campo da organização prática desta componente curricular não lectiva e não à sua importância para uma formação mais integral das crianças. Por outro lado, a questão obrigatório versus facultativo que tantas arrelias me diz que provoca (em termos de gestão do tempo e do espaço escolares, deduzo eu) é quase contradita quando afirma que só lá está (nas áreas curriculares não lectivas) quem não pode ir para outras áreas. Porque é que não pode ir para outras áreas? Porque a família não tem possibilidades económicas ou de tempo para as levar? Então será bom que a escola lhe proporcione algumas actividades… Ou seja, parece-me que os aspectos a melhorar estarão mais centrados numa definição clara do que deve ser curricular e lectivo e no que deve ser curricular não lectivo. Essa parte caberá ao Ministério ouvindo exactamente os professores e as Escolas. Mas estes e estas também têm de perceber que não se organizam da mesma forma as actividades curriculares não lectivas e as actividades curriculares lectivas. Tem de haver abertura … Senão, parece que não há solução para nada. Ou uma infinidade de actividades para que cada aluno pudesse escolher o que bem lhe apetecesse. Ou nada para não haver complicações. ..
Mal possa vou ao blog que indicou!

:))

Responder

4 Ana Narciso 3 de Abril de 2009 , 12:37

E deduz muito bem.; há crianças que não têm qualquer opção, porque os horários de trabalho das famílias são incompatíveis com os horários escolares. Mas este problema não é novo e as famílias já se tinham organizado no sentido de colmatar esta dificuldade. O que acontece é que este governo e a ideologia que o sustenta retira cada vez mais o papel central da famílias na organização do seu tempo , entregando cada vez mais as crianças à escola. Há crianças que permanecem 12 horas no mesmo espaço… o que contraria tudo o que se escreve sobre esta temática. Não concorda?Portanto tem toda a razão quando diz que “Essa parte caberá ao Ministério ouvindo exactamente os professores e as Escolas.” Essa parte , este Ministério não o pode fazer , porque tem uma matriz ideológica que o não permite fazer. E assim está bem: quem vota escolhe, não as pessoas mas os projectos políticos que se propoem fazer. O meu projecto político para a educação não passa por este modelo. Claramente não escolheria este projecto outra vez.

Responder

5 causavossa 3 de Abril de 2009 , 13:02

A Ana não é politicamente incorrecta mas apenas humanamente sensata!

Pudesse esta desumanidade que nos assaltou os ministérios … beber da sua incorrecção!

Responder

6 Ana Narciso 3 de Abril de 2009 , 13:37

Agradeço aos dois a oportunidade que me deram para conseguir explicar o que se passa nas nossas escolas, com as nossas crianças e com os nossos impostos.

Responder

7 Daniel Rebelo 3 de Abril de 2009 , 20:43

Se um dia chegar a PM você fica a minha ministra da educação :)

Cumprimentos.

Responder

8 Ana Narciso 4 de Abril de 2009 , 23:18

Obrigada. Mas não se atrase na candidatura , porque cada dia que passa é um dia a menos na construção e aplicação de um novo paradigma para um velho problema: como educar para a excelência intelectual e cívica ?
Pelo menos sabemos qual o caminho a evitar, não concorda?

Responder

9 Maria 27 de Outubro de 2009 , 23:20

Permitam-me prestar o meu testemunho.
Dou aulas de Actividades Extra/Enriquecimento a alunos do 1º ciclo desde 1999. E só nos últimos 2,3 anos é que se começou a pôr em questão a realização destas actividades. Olhando para trás e analisando estes últimos 10 anos, acho que existem 2 factores que fazem com que as AECs estejam cada vez mais desprestigiadas.
1º- Até à 3 anos atrás as actividades eram realizadas dentro do horário curricular da turma, em substituição do professor. Como toda a gente sabe o ensino do 1º ciclo é feito em mono docência, pelo que o professor da turma deveria estar habilitado para leccionar todas as áreas do programa. Porém algumas autarquias interessadas e empenhadas na formação das suas crianças, começaram a contratar estudantes universitários do concelho, para leccionarem algumas áreas programáticas do 1º ciclo, em substituição do professor da turma.
Até aqui tudo bem. O professor da turma tinha o seu horário, das 9h às 15,30h, e 2 a 3 vezes por semana aparecia alguém que ficava com a sua turma, podendo este chegar mais tarde, sair mais cedo, ir às compras, etc. Nessa altura ninguém estava contra este tipo de actividades, acontecessem estas de manhã, de tarde ou à hora do almoço.
Com a implementação da escola a tempo inteiro tudo mudou. Se os alunos têm actividades de manhã ficam desconcentrados e já não aprendem nada o resto do dia, a seguir ao almoço é impensável, porque senão o professor titular fica com um furo de 45 ou 90min e não pode ser. Se forem ao fim do dia os professores queixam-se que os alunos estão tão ansiosos e excitados pela aula de AEC que passam o dia todo distraídos. Ora à 4, 5 anos nada disto acontecia.
2º- Atribuição de financiamento às autarquias para a implementação das AECs.
Quando comecei, em 99, trabalhava 6 meses, tinha um contrato de trabalho, não tinha direito a subs. de férias, natal ou alimentação, não contava tempo de serviço, mas tinha direito a fundo de desemprego no final do contrato, e ganhava 2.000$00 líquidos por hora de aula (hora de 45min). Ora isto foi à DEZ anos atrás. Neste momento o estado financia as autarquias em milhares de euros por ano e cada uma faz o que quer. Onde estou neste momento o nosso vencimento é de cerca de 10euros ilíquidos por hora (de 60min diz a câmara), como as aulas são de 45 ou 90min, temos de compensar o remanescente com vigilância de todos os recreios antes e depois das nossas aulas. Querem-nos comparar aos professores do 1º ciclo, por isso atribuem-nos uma componente não lectiva, obrigatória mas não remunerada onde temos de fazer tudo que o coordenador considere importante na escola, desde substituir professores titulares quando faltam, auxiliar na cantina, vigiar os portões (qualquer dia põem-nos uma esfregona na mão), somos obrigados a frequentar reuniões fora do nosso horário, que também não são remuneradas. Tudo isto por nem 800euros mensais (num horário de 20h lectivas) que no final do ano contam 126 dias de tempo de serviço, num contrato de dez meses.
O que faz a autarquia ao dinheiro que vem do estado? Não sei mas não vai para os professores.
Esta é a realidade de quem optou por deixar de concorrer pela DGRHE para o secundário por dar aulas no 1º ciclo e que o fez por considerar ser essa a sua vocação. Mas obrigam-nos a escolher entre dar aulas ao secundário por obrigação (por se ter melhores condições de vencimento e tempo de serviço) ou dar aulas de AEC onde considero ser melhor profissional e ter mais vocação.
Esta é a realidade que desmotiva os professores das AECs que se aplicam todos os dias para serem bons profissionais e que lutam contra todos, tentado demonstrar o seu valor e a importância dos conteúdos que ensinam.

Responder

Comente

Pode usar estas tags e atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>