O país parece em sobressalto mediático por ter descoberto que o grupo de estudos da Economia Portuguesa da UCP (disclaimer: não faz parte das unidades de investigação da UCP que eu integre) estimou uma contracção do PIB em 3,2% para este ano. A minha questão será somente em que planeta andavam os media e os blogues que não falam de outra coisa? Em Espanha a taxa de desemprego estimada para 2009 anda pelos 17%, atingindo os 25% em algumas regiões. Na Alemanha, modelo de virtudes a emular em Portugal segundo vozes correntes, prevê-se, de acordo com as últimas estimativas, uma quebra do produto entre os 5% e os 6%. O anterior modelo a emular, a Irlanda, está, no dizer dos próprios, a 6 meses da Islândia: querendo com isso afirmar que a crise é igualmente grave, só que apenas deram por ela com algum desfasamento. Devo continuar? E é concebível imputar a culpa disto, a primeira recessão global, ao Governo Português?
Entretanto, as últimas previsões apontam para um crescimento de 7,1% na Índia, entre 5,5 e 6% na China, e uma recuperação (modesta) dos EUA já em 2010. Diversos analistas internacionais têm dito, na melhor imprensa mundial, que o cerne da crise se deslocou para a Europa. Em particular para a UEM, em que o Euro está longe de ser qualquer tipo de âncora de estabilidade. O famoso pacote de estímulos de Obama parece ter entrado em vigor a tempo, e a China iniciou o seu ainda antes. A saúde bancária da China, Índia e Brasil não têm paralelo na Europa onde os bancos da Alemanha, Aústria e Itália estão particularmente expostos ao incumprimento a leste. O Sr. Jean Claude Trichet dizia na passada quinta, onde num acesso de incompetência brutal desceu os juros em apenas 0,25 pontos, depois de ter permitido que os mercados antecipassem um corte de 0,5 (e em consequência suportou uma apreciação do Euro que só agrava o risco de deflação na Europa), que estimava não ter de descer os juros muito mais. Ele não sabe muito bem o que o espera. E Angela Merkel insiste que pacotes orçamentais nunca. Como dizia o prestigiado economista Adam Posen no Der Spiegel, o problema é que Merkel “doesn’t get basic economics”.
As ilações desta pequena súmula são claras. A primeira é que a surpresa só pode ter sido de quem andava distraído. A segundo é que a UEM tem o seu maior desafio em mãos, ao qual, Milton Friedman, um liberal, previu que ela seria incapaz de sobreviver, anos antes do seu falecimento. Interessa-me pouco se é Marques Mendes, Marcelo, ou o Pato Donald: o PSD tem o dever perante o país de terminar com um tabu ridículo, para se poder passar a debater ideias sérias. Qualquer que seja o panorama de evolução da Europa, é desejável e urgente começar a discutí-lo entre nós. De que adianta ter o Presidente da Comissão, se não sabemos que rumo gostaríamos que a Europa trilhasse? Urge discutir uma estratégia e uma reforma da política económica na Europa, numa altura em que já a melhor imprensa mundial se rendeu à ideia de G2 (EUA e China), com única alternativa no IBSA (Índia, Brasil e África do Sul).
As medidas de combate que surgiram durante o dia tiveram também a sua graça. Quando o domínio ideológico se sobrepõe ao rigor de análise, mesmo economistas conceituados insistem em caminhos que para esta crise não servem. As crises não são todas iguais.
sobre o autor
Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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