Há quem lhe chame pluralidade interna dos partidos. E é, claramente, mais saudável que a desertificação de pensadores independentes em torno de um líder. Contudo, em alguns casos, parece patológico. Refiro-me, em particular, a uma vastidão de vozes que, no PSD, dão a sensação de falar por conta própria, sem consultar o líder, ou, neste caso, a líder. O que se revela tão mais problemático quanto sejam , frequentemente, figuras que têm aspirações fortes à liderança. E mais um vez, no caso do PSD, isso é uma multidão.
Vem isto a propósito de notícia do Jornal de Negócios de Segunda, que tinha por manchete: “Pedro Passos Coelho propõe fundo para empresas emitirem obrigações”. É louvável que os partidos da oposição apresentem ideias, e é muito louvável quando essas ideias vêm de um partido do chamado arco da governação. A questão que se coloca, em minha opinião, sem querer debater a bondade da proposta neste post, é saber se PPC dialogou, conversou, avisou, discutiu,…sei lá, informou Manuela Ferreira Leite antes de publicar o plano em causa em artigo de opinião no Sol. E causa alguma estranheza, confesso, quando o escasso discurso económico de Manuela Ferreira Leite tem sido pautado por uma batalha contra a natureza da ajuda do Estado às empresas: baseada em facilidades de crédito, endividamento público para suportar programas de investimento, etc. É que na essência, Pedro Passos Coelho sugere mais endividamento das empresas: criação de um aval do Estado no montante de 6 mil milhões de Euros para facilitar a colocação no mercado de obrigações por parte de empresas com dificuldades de financiamento. Tais empresas poderiam assim usar o mecanismo de empréstimos obrigacionistas sem receio de inexistência de procura desmotivada pelo risco de incumprimento, uma vez que esses empréstimos estavam garantidos pelo Estado. Em caso de default, o Estado substituir-se-ia às devedoras, assegurando o pagamento da dívida.
Eu compreendo a iniciativa, e nem tenho uma discordância de fundo com o teor da medida (há o problema de desvio de verbas afectas ao aval aos bancos, mas isso seria negociável). Mas gostaria, de facto, de saber: 1. Qual das duas é a proposta de política económica do PSD? Isto é, poderemos poderemos esperar de um hipotético governo social democrata uma política de facilidade de crédito como PPC incentivou, ou deveremos antes acreditar que o PSD é contra propostas ao aumento do endividamento das empresas, como tem defendido a líder do partido, criticando as opções do governo de José Sócrates? 2. No caso de a proposta governativa do PSD ser a que é veículada por Manuela Ferreira Leite, as propostas de militantes como Passos Coelho são diletantismos inócuos, ou sugestões explícitas de caminhos alternativos?
Compreendo que as perguntas vão ficar sem resposta, mas tinha de as formular. É que a sensação que passa é a de uma simples marcação de terreno por parte de Passos Coelho, que desta forma procura ir aparecendo, embora sem se envolver directamente no ciclo eleitoral em curso. Afinal, evitar ir a votos, mas continuar a ser manchete de jornais, é uma estratégia plausível para quem aspire à liderança. Não diz muito é da confiança que a personalidade em causa tenha na probabilidade de sucesso eleitoral do partido. Adaptando as palavras do outdoor do PSD: Quem fala verdade neste processo? Esclarecer isso poderia ser um bom início para credibilizar o cartaz…e o partido.
sobre o autor
Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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A desagregação deste partido é por demais evidente e já data da saída de Cavaco Silva da vida política activa (interna). MFL representa um conjunto de militantes, ainda com peso no partido – os que têm contribuído para a viabilização das políticas do bloco central de interesses -, que persiste na não renovação do mesmo e vai sobrevivendo à custa da imagem construída por CS, deixada sob a forma de legado ao seu partido.
Pedro Passos Coelho, na minha opinião, é o líder que melhor se posiciona para conduzir os destinos do PSD, de acordo com a sua matriz (de base) que tem o cunho de Sá Carneiro. Apresentou uma candidatura independente à liderança do partido, o que implicitamente quis dizer que não se revia na linha programática da actual líder. E é nesse sentido, que me parece que ele tem toda a legitimidade em apresentar as suas próprias propostas, ao partido e ao país, até porque os tempos exigem concentração de forças e baixo teor de ideias inovadoras ou contrárias às que têm vindo a ser adoptadas pelos centros de decisão dos principais países que integram a União Europeia. E é neste aspecto que penso que PPC se encontra em perfeita sintonia com as directivas europeias de combate à crise económica, assim como em certa medida, está também a actual governação, apesar de muito contestada.
Cara Fernanda,
Eu não duvido que a tese de PPC esteja certa. Se me acompanhar no meu blogue pessoal verá que eu dou cobertura às teses de maior investimento público e facilidade de crédito (ditas keynesianas nos dias que correm). Nem duvido que ele o possa fazer. A minha reserva é se isto não mostra a natureza fatalmente dividida do PSD. E com esta liderança em particular.
Carlos Santos