E se de repente…a polícia pudesse torturar detidos, em Portugal?

de Carlos Santos 26 de Abril de 2009 | Informação

Fascismo nunca mais? Têm a certeza? Eu sugeria que repirassem fundo e lessem o que ontem se disse em Portugal.
Há coisas que surpreendem. Mesmo vindas de uma publicação com conhecida inclinação de direita como o National Journal Magazine. Mas Stuart Taylor deu voz às teses mais retrógradas, demagogas, trauliteiras e populistas que é possível imaginar, na sua crónica de abertura “Did Torture Save Lives?“. Representando o mais extremista bushismo que é concebível.
Pegando na frase de Barack Obama, a 16 de Abril, alegando ser falsa a escolha entre entre “a nossa segurança e os nossos ideias”, e remetendo para o passado os métodos de interrogatório, baseados na tortura, Taylor sugere que existe evidência em favor da tese de que métodos brutais de interrogatório “podem ter salvo muitas vidas nos EUA, e a renúncia a esses métodos pode custar muitas mais”. De uma forma transparente, Taylor está a advogar que a recusa de tortura de prisioneiros por parte do Presidente Barack Obama pode traduzir-se num acréscimo do risco para os EUA.
Taylor defende que Obama deve conduzir uma análise custo-benefício da tortura (!), propondo que os relatos dos interrogatórios sejam analisados na perspectiva de determinação da diferença de volume e qualidade da informação obtida após o uso de “métodos brutais”. E vai buscar a maior das referências éticas ao recordar que isso mesmo tem sido defendido por Dick Cheney, o antigo VP de GW Bush.
Para suportar a sua inacreditável tese, usa declarações recentes do antigo director da CIA, George Tenet, que em relação métodos brutais de investigação disse: “I know that this program has saved lives. I know we’ve disrupted plots. I know this program alone is worth more than [what] the FBI, the [CIA], and the National Security Agency put together have been able to tell us.” E adiciona declarações de Mike Mcconell, ex-responsável pela segurança nacional da Administração Bush, que advoga haver hoje gente viva nos EUA graças à eficácia destes métodos. Uma fonte anónima da CIA, cita Taylor terá dito a Shane Harris, outro dos impolutos jornalistas do National Journal, que a agência tinha desmantelado múltiplos ataques contra os EUA com base em informação obtida sobre tortura.
A mais demagógica das estiradas do texto de Stuart Taylor surge a propósito da chamada Second Wave, uma tese segundo a qual uma célula de terroristas do sudeste asiáticos ligados à Al-Qaeda, teria planeado desviar uma avião em Los Angeles, e fazê-lo colidir com a Library Tower, o edifício mais alto da cidade. Apenas a intervenção atempada da CIA o terá impedido, e essa intervenção é descrita nestes termos:
  1. Em 2002, Abu Zubaydah foi capturado e sujeito a “waterboarding and other brutal methods of interrogation”.
  2. Quando a sua resistência foi quebrada, forneceu informações que levaram à captura de Ramzi Binalshibh, que em conjunto com Zubaydah, forneceu informações que conduziram à detenção de Khalid Shaikh Mohammed, a alegada mente por detrás de 11 de Setembro.
  3. KSM terá resistido aos interrogatórios, mas, e cito “after being tormented and Waterboarded more than 100 times” cedeu. Forneceu informações que acabaram por conduzir ao desmantelamento da célula de 17 terroristas no sudeste asiático.

Não existem quaisquer provas de que a Second Wave alguma vez tenha sido pensada. Mas o afoito e ultramontano jornalista argumenta em favor da veracidade da mesma, achando, com aquele senso comum tão populista da direita, que ninguém ia inventar uma história destas depois de uma violenta tortura, correndo o risco de voltar a ser torturado. Citando o inestimável autor:

“If you were terrorist deseperate to stop the pain, would you fabricate a story that your interrogators would likely consider suspect, or tell them where to find other terrorists?” Não se está mesmo a ver?

E Taylor usa o argumento acima para contrariar altos responsáveis do FBI e do exército que não corroboraram a tese da Second Wave quando ele os questionou. Aliás A.B. Krongard que era o director executivo da CIA na altura dos eventos acima, declarou que homens como KSM “went through hell and gave very, very limited information.” Não passa pela cabeça do National Journal a falta de razoabilidade de o Directo Executivo admitir expressamente conhecimento de tortura e acrescentar a sua ineficácia, a menos que esta tenha de facto sido ineficaz. Porque a melhor defesa de Krongard, seria indubitavelmente, uma vez admitida a tortura, advogar a sua eficácia. Era uma má defesa. Mas sempre era melhor.

É sempre suspeito quando um jornalista tenta relatar uma história argumentando a favor de um dos lados da questão. Mas Taylor esmera-se. E termina a sua peça questionando-se se a Administração Obama estará correcta ao considerar que o mal que estes métodos causaram excede em larguíssima medida todo o impacto positivo que tenham tido. Pergunta se não se terá ido longe de mais ao proibir estes métodos que designa explicitamente de linha Bush-Cheney. E goza com a situação perguntando o que deixa de ser permitido: Gritar? Induzir falta de apetite? Ameaçar com prisão por longos anos?

Para concluir reclamando que a Convenção de Genebra não se aplica a terroristas. Talvez. Mas o que Stuart Taylor devid saber, em que meados de 2008, o Supremo Tribunal dos EUA declarou que os detidos em Guantanamo deveria ter os mesmos direitos que cidadãos americanos. E cidadãos americanos, não podem com certeza ser sujeitos a tortura.

É extraordinário que um país que produz pasquins destes tenha eleito um homem como Barack Obama para a Casa Branca. E é extraordinário que se o próprio John McCain se opunha à tortura, tenha sido a 25 de Abril de 2009, 35 anos depois da revolução dos cravos, que pelo fim de manhã encontrei nas redes sociais da net a recomendação de alguém de direita que não reconheci, mas que pelo diálogo parecia pouco importante nas estruturas partidárias,
“”Did Torture Save Lives?” excelente artigo no National Journal, http://twurl.nl/rt0485
Perto disto, é pouco impressionante que  se leia na blogosfera a 25 de Abril que, 35 anos passados, a tortura continua porque se tem de ouvir João Mário Branco“, ou que outra figura se reveja no discurso hard-power de Tony Blair a 22 de Abril em Chicago, advogando uma linha mais dura na política externa americana, que provocou o êxtase na direita portuguesa.
Posso discordar destes dois últimos, mas o tal que não reconheci, estava a louvar o artigo que louvava a tortura.
Têm mesmo a certeza que fascismo nunca mais?
[também disponível em O Valor das Ideias]
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Carlos Santos

sobre o autor

Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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Para um Vacas, com carinho
26 de Abril de 2009 ás 21:04

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