O erro no desenho institucional da UEM vai muito fundo, tocando no próprio Tratado de Maastricht e nos fundamentos da conduta do BCE. Por isso, continuo a insistir, ainda que quixotescamente, que nas Europeias se fale de Europa. E de modelos alternativos para a mesma. Porque ainda hoje a OCDE revelou que a recessão prevista para a UE será mais profunda e séria do que nos EUA, no Reino Unido (onde George Soros aventava ontem a hipótese de uma intervenção do FMI), e do que no Japão. Como argumentei aqui, havia desde o início de Março sinais claros de deflação na zona Euro, e vários membros do CA do BCE o referiram. Mas a ortodoxia monetarista, virada apenas para os tais 2% de inflação e nunca mais do que isso, fez com que o Banco estivesse sempre behind the curve, em matéria de combate à crise. Agora, como se lê no FT, a OCDE apelou ao BCE para baixar as suas taxas de juro para valores próximos de zero e adoptar medidas extremas em matéria de política monetária. E para promover políticas orçamentais mais agressivas. Ou seja, tudo o que o modelo neoliberal do desenho da UEM contraria. A crise está entre nós e com gravidade ímpar!
A crise da UEM é agravada, como aduzi aqui, pelo progressivo desmantelamento do Estado Social. Quando Barroso disse, em 2008, que a Europa tinha melhores mecanismos de resposta à crise que os EUA, esqueceu-se que parte da vanguarda neoliberal da UEM se dedicou a privatizar serviços públicos, eliminando o tal efeito automático que suavizava as recessões na Europa. E porquê? Para garantir o cumprimento de uma meta de défice que os alemães impuseram no PEC. Um valor que foi calculado assumindo um crescimento anual médio de 3%. Para que conste: prevê-se que o decréscimo só na Alemanha seja de 5,3% este ano.
Mas o que habitualmente causa maior dificuldade de compreensão à direita é o risco de deflação. Então não é bom os preços descerem? Não. Por um raciocínio deste tipo: se eu quiser comprar algo a pronto que custe xxx Euros hoje, mas esperar para este ano uma descida de todos os preços (deflação), acham que vou comprar hoje ou daqui a um ano? É isto que ajuda à contracção do consumo privado, além da crise do crédito. E se as empresas anteciparem esta quebra nas encomendas vão investir? Ou vão antes despedir? Aumentando o desemprego, palpita-me que a procura vai ser ainda menor. E entramos em espiral recessiva.
Quem quiser perceber a importância dos pacotes de estímulos de que falam a China e os EUA, e quiser compreender porque é acertado e necessário que o Estado gaste neste momento, mais não tem de fazer do que perspectivar o cenário acima. E depois disso pensar seriamente se um BCE que vive no mundo da fantasia e uma Europa dependente da paranóia germânica com o equilíbrio orçamental é realmente o que mais lhe convém.
Dizia Rahm Emanuel, Chief of Staff de Obama: “You should never waste a major crisis”. Que é uma versão do que os economistas chamam de destruição criativa. O investimento público em novas energias e novas redes de transporte, no alargamento da banda larga e em eficiência energética, além de combater o desemprego no imediato e criar despesa, numa economia em que nem as famílias nem as empresas gastam, gerando encomendas e reiniciando a normal actividade económica, tem o potencial de, a médio prazo, fazer nascer um país mais evoluído.
Como se financia isto tudo? Uma solução seriam os Eurobonds. Mas como a Alemanha não quer, continuaremos em recessão em 2010, ano em que se prevê a viragem nos EUA para a recuperação. E sabe-se lá quanto tempo mais…. Experimentem repetir isto a um absolutista do mercado livre e que ache que o Estado já tenha peso a mais. Eu aposto no insucesso da tentativa. Por isso nunca entenderão porque é que as estruturas económicas da Europa estão desenhadas de modo a ampliar os efeitos desta crise.
Dizem alguns que o voto de 7 de Junho deve ser de protesto. E se arrumássemos a casa primeiro e brincássemos depois?
sobre o autor
Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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não se esqueçam de acompanhar a candidatura da Laurinda Alves pelo MEP: http://www.mep.pt/ e http://www.mep.pt/europa/
obrigado.
cumps
E um choquezinho fiscal. Também, não ajudava?
Tem toda a razão, mas se bem direccionado, isto é, estimulando a despesa, o que podia ser conseguido:
- baixando as taxas de IVA (mas de forma visível:)
- baixando as taxas de IRS sobre as pessoas quem têm menos capacidade de poupar (escalões de rendimentos médios e baixos).
A retórica da descida do IRC fica sempre bem à Direita, mas neste tipo de crise adianta pouco. Se uma empresa não antecipa encomendas vai passar a produzir porque os impostos são mais baixos? E depois fica com os stocks?
E por outro lado, os resultados líquidos das empresas têm muitas fugas: parte é retida como reservas nas empresas (não gera despesa imediata) outra vai para rendimento de famílias que em princípio poupam mais: e por isso vai gerar menor aumento do consumo.
Já as famílias de rendimento médio e baixo, poupando pouco, um ligeiro aumento de rendimento vai provavelmente ter um impacto mais próximo do total no aumento da seu consumo, contribuindo para dinamizar a economia!
Abraço,
Carlos