Dizia Timothy Garton Ash, a 26 de Março, no Guardian, que quando Barack Obama se sentar à mesa de reuniões na cimeira do G20 em Londres, na próxima Quinta, encontrará cinco representantes Europeus, mas nenhuma Europa. É inegável que lá estarão a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Itália e a representação da União Europeia. Mas o que transparecerá ao Presidente dos EUA, como de alguma forma ele antecipava em 2006, em The Audacity of Hope, é a imagem de uma Europa desunida.
A voz dessa Europa, nas matérias sobre a mesa, é a deAngela Merkel, que em ano eleitoral na Alemanha, estará mais preocupada em não sobrecarregar os contribuintes alemães com o que considera serem irresponsabilidades alheias, do que com sentimentos de solidariedade Europeia. É paradigmático que países da UE como a Hungria e a Letónia estejam sob auxílio do FMI. Paradigmático e humilhante para uma dita União que ergueu recentemente em Bruxelas uma nova cortina de ferro, mostrando-se incapaz de auxiliar os novos membros a leste. E, teme-se bem, num cenário de risco de incumpremento na Irlanda, na Espanha, na Itália e na Grécia, que mesmo os Estados ocidentais da UEM se sintam progressivamente desamparados, porque de maneira nenhuma imaginam a Alemanha ou o BCE a acudirem generalizadamente a estas situações. Mais a mais, com o risco adicional de umaÁustria fortemente exposta ao incumprimento dos países de leste, cujas dívidas ao sistema bancária austriaco ascendem a mais de 70% do PIB deste país.
Pode o Euro ser um castelo decartas? Muitos apostam que o neoliberalismo dominante na construção europeia, e que entre nós se manifestou na forma altiva como parte do espectro político recusou essa proposta de uma maior solidariedade implícita na criação de um mercado de eurobonds, como sugeriu Jorge Sampaio (dignando-se a Alemanha a suportar um endividamento ligeiramente mais caro para que muitos países da União tivessem acesso a endividamento público mais barato) , determinará em definitivo um redesenhar da Eurolândia: com um grupo mais restrito de países, enquanto outros serão uma clara Europa de segunda.
Dizia nesse artigo Timothy GartonAsh, que o G20 bem se podia resumir a um G2 e ter lugar em Washington ou Pequim. Porque ambos vêm com posições claras, e, não nos iludamos, concertadas, sobre o que pretendem alcançar. E dias depois, na cimeira da NATO, teme-se o pior na resposta europeia a um pedido daAdministração americana a um maior empenho no Afeganistão. Um Ásia Central talibanizada é uma das verdadeiras ameaças ao novo século, e não é uma impossibilidade como mostraram os episódios recentes naPquistão. Mas em matéria de segurança e defesa, a resposta da Europa arrisca-sea ser ainda mais débil do queno plano da cooperação económica. E é sabido há muito, que o Afeganistão (e agora a crise global) serão o teste de fogo para a credibilidade do aliado Europeu perante os EUA e a China.
O grave, entre nós, é que verdadeiramente nada disto se discute, numa campanha que se prevê dominada pela politiquice interna e pela descrença dos cidadãos. A baixa participação eleitoral numa coisa distante como a Europa não será tanto culpa dos eleitores, mas mais de quem com eles não discute os desafios que fazem destas as eleições para o Parlamento Europeu mais importantes de sempre.
Já não seria pouco se neste novo espaço na web conseguíssemos combater essa desilusão. É preciso votar, mas antes disso é preciso pensar. E este é um tempo para pensar out of the box. Pela minha parte, e em nome de um projecto que erguemos com entusiasmo, bem haja por cá vir.
sobre o autor
Carlos Santos é doutorado em Economia pela U. Oxford e Professor na UCP. Trabalhou no Banco Central Europeu. Autor do livro "E agora, Obama?", editado em Fevereiro de 2009, é responsável pelo blogue O Valor das Ideias que, depois da cobertura das Eleições Presidenciais nos EUA, é um espaço de debate de Política Internacional e Economia. É coordenador dos agregadores de notícias e blogues PNETpolitica e PNETeconomia . Colabora na imprensa e em diversos fóruns de discussão.
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{ 5 comments… leia-os abaixo ou comente também }
Parece-me que se dará início a (mais) uma discussão estéril… A pouca participação cívica, quer em termos de campanhas eleitorais quer em termos de participação efectiva na vida do País por parte do comum dos cidadãos não acontece porque simplesmente ninguém lhes liga nenhuma. A verdade é esta e mais nenhuma…
Podemos especular, podemos até tentar escamotear, mas no fundo é a isso que tudo se resume. Alguém que, apenas quando lhe convém, quer saber o que penso em relação a uma determinada matéria, sendo que mesmo nessa altura, apenas se limita a fazer de conta que ouve, não valorizando, não considerando, na minha modesta opinião não é merecedor do meu tempo.
A Europa é para muitos um tema abstracto… Não sabem o que é, o que representa, para que serve… Quais são os principais desafios desta Europa? São os mesmos chavões de sempre… as frases feitas? Ficará a discussão uma vez mais no domínio da “politiquice interna”? Esta crise deverá servir sobretudo para que se veja onde se errou e, medida do possível, procurar que esses erros não se repitam. O que fará a Europa?
Aproveito para questionar se os denominados “contribuintes líquidos” estarão dispostos a manter a situação actual… a antever pela discussão do QREN diria que não…
Termino endereçando os meus parabéns por esta ideia e esperar que ela tenha muito sucesso ficando o compromisso de contribuir
Caro J. David Alves,
Pela minha parte, peço-lhe um voto de confiança. Não tenho nada contra a militância partidária, mas não tem sido essa a minha forma de vivência política. Pode vir a ser no futuro. O que tenho procurado é essencialmente o debate, como poderá aferir no blog individual que mantenho, O Valor das Ideias, e onde as preocupações expressas acima com a Europa têm sido amplamente debatidas.
E as pessoas que foram sendo convidadas a integrar o projecto, mostraram sempre ter ideias próprias e vontade de as discutir.
Mas concordo consigo, no sentido em que a Europa é um tema abstracto. E por isso mesmo o pensar fora da caixa deverá envolver um esforço de descodificação desse discurso fechado europeu para um discurso que interesse aos cidadãos, e que se manifeste na sua vida prática. Se escolhi a crise das instituições europeias para este post de abertura, acredite que não é por pessimismo genético, mas antes porque tenho sérios dúvidas que um redesenho das estruturas europeias (e por consequência dos tratados) reflectindo mais o sentir dos povos do que as ortodoxias, não seja necessário. Num exemplo: o BCE que nos condiciona a todos e onde já trabalhei, parece-me o paradigma da estrutura autista. E no contexto actual, isso é mais perigoso que nunca.
Não creio de todo que os desafios sejam neste momento frases feitas: para mim, o maior desafio é saber como, ou se, faz sentido manter uma UEM a 16 países tão heterogéneos num cenário em que mesmo os que acreditam no modelo neoliberal da UEM, admitem que a crise em países como a Irlanda poderia ser evitada se o BCE tivesse uma política mais orientada para o crescimento e emprego, e não exclusivamente para a inflação. Há um risco real de alguns países não aguentarem a permanência no Euro se o colapso bancário se der em Espanha ou na Áustria. Em 50 anos de construção europeia, eu julgo que enfrentamos os maiores desafios de sempre. Não lhe posso prometer o que as campanhas vão discutir. Posso-lhe prometer que os temas que aqui trarei são parte de uma agenda em que as pessoas estão à frente dos ideiais utópicos que presidiram ao estado de coisas a que chegamos. Acredite que me interessa muito a sua pergunta sobre o que fará a Europa, e como referência permito-me apresentar apenas as credenciais do que tenho discutido no meu blogue pessoal.
E digo mais: o seu receio quanto aos contribuintes líquidos, é o meu. Num ano em que o maior desses contribuintes vai a votos, e submerso numa crise económica séria, eu temo que a dicotomia Europa / EUA em termos de menos / mais incentivos ao emprego se vá agravar à conta disso. É o que se antevê para Quinta no G20.
Conto com essa sua participação. E saiba que tem em mim, e com certeza nesta equipa que fomos reunindo interlocutores atentos. Mas respondendo por mim, conto consigo. E em nome de todos, obrigado pelos parabéns. Que retribuo pela sua vontade de participar.
Um abraço,
Carlos Santos
Caro Carlos,
Concordando com grande parte das tuas palavras, apenas destaco que será enviesado poder considerar-se a Cimeira de Londres como um possível G 2. Há mais participantes a ter em conta, como o Japão (e a Autsrália com Kevin Rudd bem pode revelar-se como uma das grandes e principais aliadas de Obama nestes tempos). E há um dos intervenientes que merece particular destaque: o Brasil. A Cimeira dos líderes progressistas, que decorreu no último sábado e domingo, no Chile, com uma forte e vincada presença de Lula nos trabalhos em Viña del Mar, isso indica.
Caro Carlos,
Será de facto uma hipérbole falar em G2. Dos países emergentes, a Índia é também um referência incontornável. E como dizes, o Brasil. A meu ver muito por mérito de um sistema de regulação bancária muito mais exigente do que na Europa Ocidental ou nos EUA. O sistema financeiro brasileiro é saudável. E isso conta muito. A única dificuldade que antevejo ao Brasil é que o enorme esforço que fez na contenção da dívida não antecipa um pacote de investimentos capaz de evitar um quebra do crescimento, e quem dera isso à Europa…
E embora não tenha assistido a movimentações diplomáticas intensas entre os EUA e a Austrália, parece-me claro que essa translação do eixo geoceconómico para o Pacífico precisa da Austrália como importante força de contenção da China a Sul, na óptica americana. Mas de alguma forma isso é wishful thinking. EU não estou a ver dois países que tenham trabalhado mais a concertar agendas no G20 que os EUA e a China. As declarações sobre o dólar, sabêmo-lo bem, são impraticáveis a médio prazo.
Um abraço,
Carlos
A todos,
Concordo perfeitamente sobre o facto de muitos de nós não sabermos praticamente nada sobre a Europa, as suas instituições, as suas políticas e a forma como podemos “moldar” essas políticas (caso das eleições).
E isso está intimamente relacionado com este blog. Pela minha parte, se conseguir ajudar a transmitir informação útil que auxilie na construção de pensamentos e que leva as pessoas a interessarem-se pela política interna e externa, então tenho o sentimento de dever cumprido.
Este blog pretende-se informativo e tem como objectivos levar para a “mesa” assuntos que normalmente as pessoas não abordam e promover o debate e a troca de ideias, com as quais todos podemos aprender e crescer.
A título de exemplo, digo sinceramente que ficaria extremamente orgulhoso se alguém votasse num determinado partido por se ter interessado na vida política através deste blog, mesmo que votasse no partido exactamente oposto ao que eu apoio.
Como autor mas essencialmente como leitor interessado, desejo uma excelente “contenda” a todos que por aqui passam e que contribuem, deixando um pouco de si através dos textos que escrevem.
Cumprimentos,