Amanhã publico aqui um artigo com 4 respostas sobre a campanha online. Em jeito de lançamento, e porque o assunto é actual e merece um destaque fora do contexto do artigo, pré-publico um excerto, ligeiramente adaptado.
O PSD está a ter melhor blogosfera, o que nos dias que correm já é marcante, pois a blogosfera — a opinião com esteróides — acaba por alimentar a opinião publicada nos órgãos de comunicação social. A prova disso é a leitura dos resultados das sondagens pelos OCS: os números não mudaram significativamente, mas a percepção deles mudou de tom de forma dramática. Contendo basicamente a mesma quantidade de água, ou até um tudo nada menos, o copo passou de meio vazio a meio cheio. Claro que a prestação do cabeça de lista do PSD está na origem dessa mudança interpretativa — mas não considero desprezível o contributo da aguerrida e concertada blogosfera de direita para essa alteração do tom das análises.
Na realidade numérica, o PSD desceu e a última sondagem é a pior das cinco sondagens relativas às eleições europeias que já se fizeram de Abril para cá. Da primeira para a última as intenções de voto no PSD baixaram 8 décimas e as intenções de voto no PS subiram 12 décimas — ou 1,2 por cento –, logo o fosso entre os partidos aumentou, levando em conta a diferença entre os extremos do período em análise, que corresponde ao último mês.
Olhando o gráfico percebe-se que o PSD obteve o seu melhor score nas semanas subsequentes ao anúncio do seu cabeça de lista, pondo fim a um período de incerteza e especulação. Mas as duas auscultações seguintes, já em Maio, demonstam ambas situações de perda exclusiva — isto é, não os comparando com os demais partidos.
A realidade interpretativa é outra. Esta última sondagem foi recebida como uma prova de que Paulo Rangel tinha “invertido” a situação de perda do PSD. O uso de expressões como “empate técnico” — tão verdadeiro hoje como em Abril, ainda que um pouco menos legítimo se nos incomodarmos com detalhes como o rigor — surge como uma preciosa muleta não tanto linguística, mas de desejo: o wishful thinking, tão importante em comunicação, gostemos ou não.
Não estando disposto a aceitar que jornalistas que conheço e prezo precisem de demontrar que “pensam positivamente” acerca do desempenho do PSD, resta rebuscar nessa dose de “entusiasmo” “feita surgir” pela blogosfera e personificada por um candidato de emérita oratória e lesto na adjectivação, as raízes da mudança de percepção da quantidade de água no copo.
Gráfico reproduzido do dossiê Eleições 2009 do Público.
sobre o autor
Paulo Querido é jornalista free lance, autor e empreendedor. Mantém colunas no Expresso Multimedia, web 2.0 e Cibercidadania, além do webzine pessoal, Certamente!. Edita a iniciativa web do Estado português para o Ano Europeu da Criatividade e Inovação, Criar 2009. Tem um projecto jornalístico em embrião: Diário2.com.
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{ 7 comments… leia-os abaixo ou comente também }
Eu penso que só se pode comparar sondagens feitas pela mesma empresa, já que empresas diferentes usam métodos de amostragem diferentes e até universos diferentes. Além disso, as diferenças de intenção de voto no mesmo partido de uma sondagem (data) para outra sondagem (data) ficam frequentemente dentro da margem de erro de amostragem, sendo inútil essa comparação.
Por outro lado, para uma eleição que terá uma abstenção de dois terços, qualquer “projecção” é um enorme risco.
Finalmente, correspondendo à minha visão sobre o essencial do post, sempre me causou uma certa impressão o modo como os jornalistas (sim, estou a generalizar!) conseguem “ler” as sondagens de uma forma que nenhum técnico de sondagens ousaria :)
Beijokense, o que o artigo pretende é dar um olhar sobre a forma como as sondagens são percepcionadas pelos comentadores.
Tento perceber o que leva, numas ocasiões, os comentadores a zurzirem os resultados do PSD interpretando-os como “negativos” e, noutras ocasiões, perante números similares ou até piores que os interpretados antes, a falarem neles num tom positivista e quase entusiástico. Ajude-me a perceber isso.
Muito bem enunciado.
Quando há uns textos atrás deixei a questão, no Aritméticas, era mesmo aqui que queria chegar.
À parte:
Parabéns pelo Eleições Europeias 2009. Parece-me bem conseguido, embora ainda haja algo a melhorar.
Paulo Querido,
Tenho apenas um pressentimento que resulta da minha experiência noutros contextos. Os números e outros argumentos ditos “factuais” são usados pelas pessoas para justificar de forma dita “racional” as suas preferências, os seus gostos, que resultam de avaliações afectivas. É uma das “causas” possíveis para diferentes “leituras” de “números similares”.
Aplicado a este contexto, se bem entendi o que o Paulo escreveu, há uma mudança de percepção da realidade envolvente, a qual pode ser provocada por n estímulos (e.g. os “esteróides); as pessoas buscam, de forma mais ou menos inconsciente, justificações para os novos estados afectivos e os números são um dos apoios possíveis, mesmo que, em substância, eles não se tenham alterado.
Voltando ao meu primeiro comentário (desculpe-me a insistência), não é possível comparar uma sondagem que apresenta 13,5% de votos nos pequenos partidos, brancos & nulos (19/4) com outra em que esses mesmos votos valem 0% (22/4). O gráfico que apresenta neste post, para mim, não tem qualquer significado, só o teria se as cinco sondagens fossem metodologicamente equivalentes.
Só queria acrescentar que quem sabe da poda explica aqui o essencial do que eu quis dizer no primeiro comentário.
Paulo Querido,
como já lhe disse no twitter, os argumentos “racionais” servem, predominantemente, para justificar a nossa percepção emocional do mundo que nos rodeia. Muita gente começou a sentir que algo estava diferente e procurou a justificação nos números, mesmo que, objectivamente, estes nada dissessem!
Como animais que somos, fomos, felizmente!, dotados de uns “sensores” emocionais que são capazes de perceber o ambiente mais rapidamente do que o tempo que levamos a conhecê-lo. Não é nenhum 6.º sentido, são apenas os cinco, umas ‘trocas’ iónicas e umas reacções químicas…
Paulo Querido, resolvi fazer um post sobre a má interpretação jornalística da “tendência” entre duas sondagens :)