Na Europa, hoje, venceu a abstenção com uma média de 57% contra 43% de votantes… além disso, a característica generalizada dos resultados eleitorais deu a vitória ao centro-direita… na sequência dos resultados que deram forte expressão, na Holanda, à extrema-direita, “a coisa Berlusconi” alcançou 40% dos votos em Itália e, em França, Jean-Marie Le Pen voltou a ser eleito para Estrasburgo… razão seja dada à lúcida, ainda que magoada, leitura de Vital Moreira que, além de atribuir os resultados de hoje aos efeitos da recessão determinada pela grave crise internacional, chamou a atenção para o facto da ”fragmentação partidária“ justificar o receio pela “governação do país no futuro“. Em Portugal, a abstenção atingiu praticamente os 63% (que, nos Açores, chegou aos 78%)… por isso, vale a pena pensar o panorama político nacional, desta vez colorido a amarelo do Norte a Santarém e no Algarve, a rosa apenas em Lisboa e Portalegre e, a vermelho, nos distritos de Beja, Évora e Setúbal. Voltou, se assim se pode dizer, a vencer o eleitorado e a lógica tradicional que procura a segurança e a confiança quando o meio envolvente ameaça a estabilidade e produz a insegurança – o que justifica a vitória da CDU nos 2 maiores distritos do Alentejo e em Setúbal e o resto do país a alternar entre PS e PSD… o que é, aqui, digno de registo são alguns dados que concorrem para a explicação da abstenção enquanto reflexo do desinteresse ou melhor, da desmobilização cívica relativamente ao voto. Antes de mais, refira-se o imenso erro das sondagens (que não é inédito, infelizmente!, no nosso país!) que, sistematicamente, deram e alardearam a vitória ao PS, reduzindo a consciência da necessidade do voto por parte de muito eleitorado e que, por outro lado, desenvolveram a urgência em afirmar politicamente o PSD num momento em que a sua imagem estava excessivamente “apagada” e “desgastada” e em que emergia como estratégia a redução da hipotética margem de vitória do PS em que assentou a mobilização dos militantes e simpatizantes do Partido Social-Democrata… Com os devidos cumprimentos aos vencedores, cabe dizer que, mais do que aos respectivos Secretários-Gerais, cabem a Paulo Rangel, Miguel Portas, Ilda Figueiredo e Nuno Melo os parabéns pelos resultados alcançados… quanto ao Partido Socialista, para que se não repitam surpresas desagradáveis, vale a pena lembrar a sua acrescida responsabilidade na constituição de listas, programas e estratégia de campanha para as legislativas que deverá afastar-se de ligeirezas negligentes ou contextos cénicos que esgotem ou substituam a substancialidade explicativa e transparente da mensagem… porque, como, de facto, os tempos não são gratuitos nem ”correm de feição” e muito deve o partido do governo pensar sobre o futuro próximo… Hoje, a Europa dos Cidadãos ficou mais ameaçada pelo espírito de “Europa Fortaleza” e nada de particularmente bom podemos esperar deste facto, dada a crise económico-social que nos afecta a todos… compreende-se a alegria de quem sente recompensadas as suas expectativas e a decepção de quem “foi apanhado de surpresa” mas, na verdade, os resultados não são ilógicos nem, realmente, surpreendentes… Vital Moreira sabe isso… e todos os seus colegas no Parlamento Europeu vão precisar do precioso contributo que a sua inteligência, saber e independência trará para a consolidação da Europa de Todos que continuamos à espera de ver solidamente (re)construida.
sobre o autor
Ana Paula Fitas Doutora em Ciências Sociais (Ramo: Estudos Portugueses; Especialidade: Cultura Portuguesa do Século XX) pela Universidade Nova de Lisboa. Investigadora Senior nas áreas da Antropologia Social, Antropologia Política, Antropologia de Género e Antropologia das Religiões, Etnologia Comparada e Sociologia Rural, Sociologia da Cultura e Sociologia das Religiões com trabalho desenvolvido e publicado em Portugal, Espanha e Índia. Docente do Ensino Superior. Consultora em Igualdade de Género. Coordenadora de Projectos de Desenvolvimento Comunitário e Local. Autora dos livros "Ocupação Sexual dos Espaços e Redes de Comunicação Social" e "Olivença e Juromenha - uma história por contar", de cerca de duas dezenas de artigos científicos, conferências e comunicações. Colaboradora em orgãos de imprensa regional. Co-autora do blogue Forum Palestina é a Autora do blogue A Nossa Candeia (http://www.anapaulafitas.blogspot.com/).
Últimos 3 artigos
O povo é quem mais ordena... - 12-10-2009
Votar é Preciso... - 9-10-2009






{ 2 trackbacks }
{ 2 comments… leia-os abaixo ou comente também }
“Hoje, a Europa dos Cidadãos ficou mais ameaçada pelo espírito de “Europa Fortaleza” e nada de particularmente bom podemos esperar deste facto, dada a crise económico-social que nos afecta a todos… ”
É um facto, Ana!
Quando mais se precisa de uma dimensão social, que os socialistas tanto valorizam, a derrota europeia deve fazer pensar o PSE, a nível nacional e europeu, dos resultados e consequências deste desastre.
E, não sejamos ingénuos, há, no PPE, quem aprecie mais a Europa Fortaleza do que a Europa dos Cidadãos.
A questão turca, crucial na vida europeia, e deverá ser decidida nos próximos anos – a sua adesão ou distanciamento do projecto europeu, sofre hoje um sério revés.
Pois é, Carlos! … aproximam-se tempos difíceis para uma Europa que teima em não se afastar, tanto quanto seria desejável, das lógicas que geraram, no passado século XX, períodos de má-memória… a Turquia pode, efectivamente, ser um dos primeiros sinais deste “sério revés”… enquanto Obama se esforça, no Cairo e no Senado norte-americano, por um mundo mais tolerante, plural e pacífico, a Europa jogou na abstenção e abriu caminho à redução de uma parceria UE-EUA que poderia ser muito mais interessante e útil para todos nós. Um abraço.