As urnas fecharam às 19h. Por todo o país, nas mesas de voto, a percepção era comum: uma abstenção preocupante que atingiu, em algumas capitais de distrito, taxas que não alcançavam os 20% às 14h… começava a tornar-se real o cenário anunciado. 19.10h: na RTP1, é divulgada a taxa de abstenção prevista pela Universidade Católica a oscilar entre os 61 e os 65%… uma amiga, com pouco mais de 30 anos, perguntara-me há dois dias: “Oh, Ana Paula, que taxa de abstenção é que obriga a anular as eleições?“… sorri… e respondi ao seu rosto surpreendido: “Nenhuma, Inês!“… Pois é… nenhuma!… e deveria talvez existir… não para impôr o voto aos eleitores mas, para obrigar os partidos a respeitarem o eleitorado, realizando campanhas esclarecidas e verdadeiras sobre o que, efectivamente, está em causa!… curiosamente, a inteligência dos eleitores não correu atrás, massivamente, do apelo ao “cartão vermelho“ à governação mas, também não foi votar gratuitamente… como dizia, há pouco, António Vitorino, na RTP, se foi este o conteúdo de uma campanha para as europeias, o que poderemos esperar da campanha para as legislativas?!… tudo isto é lamentável… principalmente, como disse António Costa, também na RTP1, porque: “as pessoas ainda não perceberam como as decisões da Europa contam para a vida delas, mas como, também, dependem delas.“
sobre o autor
Ana Paula Fitas Doutora em Ciências Sociais (Ramo: Estudos Portugueses; Especialidade: Cultura Portuguesa do Século XX) pela Universidade Nova de Lisboa. Investigadora Senior nas áreas da Antropologia Social, Antropologia Política, Antropologia de Género e Antropologia das Religiões, Etnologia Comparada e Sociologia Rural, Sociologia da Cultura e Sociologia das Religiões com trabalho desenvolvido e publicado em Portugal, Espanha e Índia. Docente do Ensino Superior. Consultora em Igualdade de Género. Coordenadora de Projectos de Desenvolvimento Comunitário e Local. Autora dos livros "Ocupação Sexual dos Espaços e Redes de Comunicação Social" e "Olivença e Juromenha - uma história por contar", de cerca de duas dezenas de artigos científicos, conferências e comunicações. Colaboradora em orgãos de imprensa regional. Co-autora do blogue Forum Palestina é a Autora do blogue A Nossa Candeia (http://www.anapaulafitas.blogspot.com/).
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60% de abstenção numa altura em que Portugal atravessa uma crise enorme, demonstra o desinteresse, a falta de consciência e preocupação dos portugueses. Somos um povo conformado com a desgraça. Não queremos fazer nada para saír do “buraco”… nem trabalhar, nem lutar, nem esforçar. Nada… nem sequer colocar uma cruz num papel (que demora 1 min a fazer). Triste população…
Caro Luís Melo,
Obrigado pelo seu comentário… de facto, a “falta de consciência e preocupação dos portugueses” conduziu à produção de condições em que a perplexidade determina o imobilismo… e quando a falta de estímulos económicos e sociais é estruturalmente tão persistente, como o é no nosso país, ficamos reféns desta tétrica e contraproducente anomia de que decorre a inércia… Ficamos todos a perder… a Europa Social dos Cidadãos que queremos, o País que Somos e a Democracia que Ainda Temos… Contra o conformismo em relação ao desalento e à “desgraça”, continuemos, conscientes e activos. Um abraço.
Não esquecer a abstenção técnica. Nós temos 9 milhões e meio de eleitores! Limpem 1º os Cadernos e depois falamos.
Desta vez, caro José Manuel Faria, não estamos perante problemas essencialmente decorrentes de abstenção técnica… mais logo, penso pronunciar-me sobre isso. Um abraço.
Boa Tarde
Muita gente absteve-se por protesto …
as pessoas estão cada vez mais cansadas de um sistema que favorece sempre os mesmos e da falta de responsabilização aos nossos políticos já que mesmo com o descontentamento visível tanto na abstenção como nos votos brancos estes continuam impunes nas suas cadeirinhas.
Boa Tarde Wessel,
Tem toda a razão! As pessoas abstiveram-se “por protesto”… um protesto generalizado que, naturalmente, penaliza o poder em exercício da governação que mas nele se não esgota, apesar de quem vence preferir não assumir que a abstenção é o mais autêntico reflexo do que se passa na sociedade portuguesa: um imenso cansaço perante o sacrifício gratuito e a persistente impunidade… de todos… contra todos! Bem-haja!
Eu não votei porque senti que estas eleições não tinham valor.
O políticos limitaram-se a fazer campanha para as próximas eleições e não falaram sobre nenhum dos assuntos que estão em discussão na União Europeia.
Como não fui esclarecido e como os candidatos não estavam interessados nos cargos a que se estavam a candidatar, eu decidi não perder tempo com as eleições. (e vivo a 5 minutos das urnas de voto).
Ainda agora o candidato do PSD passa a vida a dar entrevistas e só fala em assuntos internos. Ignora completamente a União Europeia.
Para mim o resultado destas eleições mostra que as pessoas não têm medo de dar o poder aos partidos mais pequenos e mostra sobretudo que o medo dos comunistas não impede de votar no Bloco de Esquerda.
Este 60% deixa uma grande margem de manobra e todos os partidos têm que trabalhar para conquistar esses votos. Tudo pode acontece e, sobre tudo, podemos fazer todo o tipo de leituras.
Podem pensar que queremos castigar o Governo.
Podem pensar que queremos dar um puxão de orelhas mas deixamos claro que estamos dispostos a dar uma 2ª oportunidade.
Ou apenas tiramos férias…
Seja como for, parece-me que a maioria dos Português estão fartos das mentiras e corrupções. Por isso a próxima campanha tem que ser clara e honesta.
Nas próximas eleições não vai haver esta grande abstenção e se a campanha for tão vergonhosa como foi a campanha para as europeias, acreditem que nenhum dos grandes partidos fica com a maioria e o Bloco de Esquerda passa a ocupar um grande número de assentos no parlamento.
Se não temos escolha para o governo damos força à oposição, resta saber se conseguimos dosear a força :P
Obrigado pelo seu interessante e muito útil comentário, Pedro! Não acrescento nada ao que diz porque penso que o Pedro enunciou neste texto uma perspectiva lúcida e importante a ter em consideração… volte sempre! Um abraço.